Psykhé
(alma) é vida ou o princípio vital que anima um ser ou lhe dá vida e, porque a
vida é movimento ou mudança, psykhé é
o princípio da autoatividade e da autoconservação do cosmo. Ela é a Alma do
Mundo. Enquanto Alma do Mundo, a psykhé
é a fonte do conhecimento, pois com os mesmos elementos com que a fabricou o
demiurgo fabricou a alma humana e a colocou num corpo. Participando da Alma do
Mundo, a alma humana individual, além de ser o princípio vital do corpo, está
destinada por natureza ao conhecimento.
No Fedro, Sócrates explica que, no
princípio, havia uma única alma e dela provieram as almas dos deuses e as dos
homens. A alma humana é, pois, uma natureza intermediária entre o divino e o
mundo, destinada ao conhecimento, mas por sua ligação com o corpo também pode
cair no erro e ser arrastada pelas paixões, que a distanciam de sua destinação
natural (conhecer/contemplar as formas
inteligíveis). Psykhé é o
princípio da vida mental e espiritual ou o princípio cognoscente. A alma é o
que, em nós, conhece e permite conhecer. Nesse sentido, diversamente do Timeu, em que todos os seres possuem
alma ou são vivos, ainda que somente os homens possuam o princípio do
conhecimento, no Fedro, somente os
homens são dotados de alma, pois esta é identificada à razão, alojada num corpo
e diferente dele. Mas, como no Timeu,
também no Fedro a encanação da alma
faz dela a sede dos apetites, dos desejos e da afetividade.
Em todos os diálogos em que trata da alma
humana, Platão a apresenta como uma natureza intermediária entre o sensível e o
inteligível, participando da primeira pelo corpo e da segunda pela inteligência
ou razão. Porque participa das Formas
Inteligíveis, a alma participa da eternidade delas, ou seja, é imortal. A psykhé é o divino em nós ou, como
escreve Platão, é o que em nós “é semelhante ao divino” não só pela
racionalidade, mas também pela imortalidade.
No caso da alma humana, não se pode
definir a alma em geral e encontrá-la sempre idêntica a si mesma em todos os
homens. Ela não é universal como as Formas
Inteligíveis, mas uma singularidade, diferente em cada ser humano (o que
torna tão difícil, se não quase impossível, aos homens defini-la). No entanto,
apesar da individualidade da nossa alma, podemos conhecer certas
características universais da alma humana, pois é impossível que a faculdade de
conhecer (intelecto / parte racional da alma) não possa conhecer alguma coisa
de si mesma. Não podemos definir a alma de um ser humano específico, mas
podemos conhecer propriedades e funções, atividades e passividades que
pertencem a alguma coisa que designamos com a expressão “alma humana”. É
possível, portanto, alguma ciência da alma, ou seja, a psicologia. Assim como
um médico conhece as partes do corpo localizando-as e conhecendo as funções de
cada uma delas, assim também o psicólogo conhece a alma encarnada no corpo,
conhecendo sua localização e suas funções.
***
Devido
à relação da alma com o corpo, Platão foi levado a distinguir três partes ou
funções da alma (que correspondem, respectivamente, à proteção do corpo, à
conservação do corpo e ao conhecimento), quais sejam, a função (irracional) apetitiva, responsável pelos desejos; a
função (irracional) irascível, responsável
pelos sentimentos e pela capacidade de julgar a periculosidade de dada situação;
e a racional, responsável pelo
conhecimento da verdade, das Formas Inteligíveis.
Essa
divisão estabelecida por Platão parte de dois pressupostos: primeiro, é
necessário saber se cada operação que executamos (como desejar, irritar-se,
conhecer, por exemplo) é realizada por algum elemento específico da alma ou
pela alma inteira; segundo, um mesmo sujeito não pode ter sua alma voltada para
um mesmo objeto e produzir, ao mesmo tempo, relativamente a este objeto,
efeitos contrários. Ou seja, se alguém tem sede, seu corpo sequioso (que tem
muita sede) produz na alma o desejo de beber agua e a alma do sequioso, na
medida em que sente sede, não quer outra coisa que não seja beber, sendo
impossível que a alma queira, ao mesmo não tempo, não beber. Em outras
palavras, um sujeito não pode ser contraditório consigo, sob a pena de
autodestruir-se.
Por
outro lado, ocorre muitas vezes de desejarmos algo, como, por exemplo, comer e
beber e, ao mesmo tempo, decidimos não comer ou beber. Neste caso, estaria a
alma em contradição consigo mesma? A resposta haveria de ser afirmativa caso a
alma tivesse de ser pensada como uma unidade, idêntica a si mesma. É em vista
de tais dificuldades que Platão divide a alma em três partes ou funções, onde,
por um lado, cada parte não pode estar em contradição consigo, mas, por outro,
pode estar em contradição com as outras partes. Com isso, um sujeito pode ser impelido a comer ou beber isso ou
aquilo, através da função apetitiva da alma e, no entanto, ser impedido de fazê-lo através do domínio
das outras partes da alma sobre a parte apetitiva. Do mesmo modo, muitas
pessoas ficam com raiva de si mesmas, irritam-se e se censuram por terem cedido
aos impulsos do desejo. Assim sendo, a cólera (ou a raiva) - relativa à função
irascível da alma – não deve ser confundida com o desejo - relativo à parte
apetitiva da alma – em relação ao qual ela se manifesta. Por outro lado, muitas
crianças já nascem cheias de irritabilidade, nem sempre alcançando o uso da
razão ou chegando a raciocinar muito mais tarde, com o passar dos anos. Também
neste caso a função irascível da alma – responsável pela irritabilidade – não
deve ser confundida com a função racional. Dividindo, desse modo, a alma em
três partes ou funções Platão consegue, portanto, dar conta da realidade
múltipla que constitui o homem, que se caracteriza pela relação da alma com o
corpo.
A
tri-funcionalidade da alma estabelecida por Platão – como resultado de sua psicologia (ciência da alma) – terá uma
importância decisiva para a sua ética
(ciência da conduta virtuosa). Uma vez estabelecida as três partes ou funções
da alma Platão se pergunta se é possível um homem ser virtuoso se nele comandar
a função irascível ou a função apetitiva da alma. Platão responde
negativamente, por dois motivos. Primeiramente porque a justiça exige que o
melhor comande o pior e que o superior comande o inferior. Visto que a parte
melhor e superior da alma é a sua parte racional, seriam injustas as ações que
fossem comandadas pelas partes irascível e apetitiva da alma. Em segundo lugar
porque, conforme o ensinamento socrático, a força do desejo e da cólera pode
obscurecer a inteligência e comprometer a excelência da função racional da
alma, impedindo-a de sua função própria, que é conhecer a verdade (Formas Inteligíveis) e ordenar (de modo
perfeito) o mundo a partir de tal conhecimento.
Sendo
assim, qual é a tarefa da parte racional da alma? Dominar as outras duas
partes, e harmonizá-las com a razão. O domínio da função racional da alma sobre
a função apetitiva é uma virtude que recebe o nome de temperança (ou moderação). A virtude da temperança faz com que a
parte apetitiva da alma não ceda a todos os impulsos e prazeres, impondo-lhes a
medida oferecida pela razão. O
domínio da razão sobre a parte irascível da alma é uma virtude que recebe o
nome de coragem (ou prudência). A
prudência é de importância fundamental para o comando da razão sobre as partes
inferiores da alma, pois além de tornar a parte irascível da alma apta a
discernir o que é bom e o que é mal para a vida de seu corpo, impedindo-a de
lançar-se a todo e qualquer combate que imagine ser importante para a vida do
corpo (pois saberá quando e por que um combate deve ser travado e quando deve
ser evitado), ela também permite o controle da parte apetitiva da alma,
impedindo-a de entregar-se a prazeres que poderiam levar à destruição do corpo,
ou seja, guiando-a na escolha do que é bom para a vida. Sendo assim, a vida
ética ou virtuosa dependerá exclusivamente da parte racional da alma e do
exercício apropriado da função que lhe é própria. Assim, um homem é virtuoso
quando vive a vida justa: aquela em que cada função da alma realiza sua própria
excelência ou virtude sob a conduta e a direção da parte superior, a razão.
Texto adaptado a partir do livro Introdução à História da Filosofia: dos pré-socráticos à Aristóteles, de Marilena Chauí.