sábado, 18 de fevereiro de 2017

FILOSOFIA POLÍTICA – O ensinamento Sofista – texto 1


SÓCRATES – Protágoras, viemos procurar-te para tratar contigo de certo assunto, eu e Hipócrates aqui presente.
PROTÁGORAS – Desejais falar-me em particular, ou na presença destas pessoas?
SÓCRATES – Para nós é indiferente; depois de ouvires o que nos trouxe aqui, tu mesmo decidirás o que convém fazer.
PROTÁGORAS – Qual é, então, o motivo de me procurardes?
SÓCRATES – Hipócrates que aqui vês, é de nossa cidade, filho de Apolodoro, oriundo de uma casa grande e abastada. Quanto aos dotes naturais, pode competir com os mais distintos moços da mesma idade. Ambicionando, segundo penso, tornar-se figura de relevo em nossa cidade, pareceu-lhe que o melhor meio de alcançar esse propósito seria tomar lições contigo. Vê, portanto, o que é mais conveniente, tratarmos desse assunto em particular, ou na frente de outras pessoas.
PROTÁGORAS – Com razão, Sócrates, te interessaste por mim. Um estrangeiro que procura as grandes cidades e nelas convence a fina flor da juventude a abandonar a companhia de parentes e de estranhos, para ligar-se a ele e vir a lucrar com a sua convivência, precisa tomar algumas precauções. Com isso faz nascer muita inveja, além de provocar inimizades e intrigas de toda natureza. Aliás, sou de opinião que a arte do sofista é muito antiga, mas que os homens das outras eras que a praticavam, com medo dos contratempos da profissão, recorriam a subterfúgios para escondê-la, valendo-se alguns, como Homero e Hesíodo, da poesia; outros mais, como Orfeu e seus discípulos, dos mistérios e oráculos. Sim, alguns, conforme observei, serviram-se até mesmo da arte da ginástica, tal como Icos, e também esse sofista ainda vivo, que não cede a palma a nenhum outro, Heródico. A música também serviu de pretexto para Agátocles, sofista eminentíssimo, assim como para Pitóclides, e para muitos outros. Todos eles, como disse, usavam as respectivas artes à guisa de capa, para os resguardarem da inveja. Eu, porém, não compartilho o modo de pensar deles todos, por estar convencido de que não conseguiram realizar o que pretendiam, pois os homens que nas cidades detém as rédeas do governo não se deixaram iludir com respeito à finalidade de semelhante prática. Quanto ao vulgo, por assim dizer, não percebia nada; limitava-se a elogiar tudo o que eles diziam. Pretender esconder-se, sem o conseguir, e ser surpreendido pelos homens, a simples tentativa já é completa loucura, que só pode suscitar maior animosidade contra eles mesmos... Eis a razão de eu tomar caminho diferente: declaro sem ambages [rodeio, firula] que sou sofista e instruo os homens, convencido de que essa precaução é melhor do que a deles e que mais vale confessar do que negar. Aliás, não deixo de tomar outras medidas que me põe a coberto de incômodos, pelo fato de apresentar-me como sofista. E note-se: há muito tempo exerço essa profissão, pois a soma dos meus anos já vai alta; entre os presentes não há um só de que eu, com a idade que tenho, não pudesse ser pai. Por isso, nada me poderia ser mais agradável, caso concordeis, do que falardes na presença de quantos se acham aí dentro.
SÓCRATES – Percebi que ele desejava mostrar-se e vangloriar-se a Pródico e a Hípias por o termos procurado na qualidade de admiradores dele. Daí, disse-lhe: — E por que não chamarmos, também, Pródico e Hípias, juntamente com seus acompanhantes, para que nos escutem?
PROTÁGORAS – Perfeitamente.

Após todos estarem sentados, começou Protágoras:

PROTÁGORAS – Repete agora, Sócrates, aos presentes, o que há pouco me disse a respeito desse moço.
SÓCRATES – Começarei, Protágoras, expondo o objeto de nossa visita. Hipócrates, aqui presente, deseja muito tomar aulas contigo, e diz que de bom grado ficaria sabendo as vantagens que lhe adviriam de tua companhia. Eis o que temos a dizer.
PROTAGORAS – Jovem, no caso de frequentares minhas aulas, desde o primeiro dia de conversação retornará para casa melhor do que eras, o mesmo acontecendo no dia seguinte e nos subsequentes, acentuando-se cada dia mais o teu progresso. Na minha companhia, Hipócrates, não se ocupará senão com o que se propusera a estudar, quando resolveu me procurar: a prudência nos negócios domésticos, que o capacite a dirigir a sua própria casa, e a sabedoria nos negócios da Cidade.
SÓCRATES – Será que apanhei bem o sentido do que disseste? Quero crer que te referes à arte da política e que prometes formar bons cidadãos.
PROTÁGORAS – É nisso mesmo, Sócrates, que consiste a minha profissão.
SÓCRATES – Possuis uma grande arte, sem dúvida, se é que a possui. Só direi o que penso. Sou de parecer, Protágoras, que isso não pode ser ensinado. Nisso estou de acordo com os demais helenos. No entanto, verifico que quando nos reunimos em assembleias, por precisar a cidade deliberar sobre assunto de construção, mandam chamar arquitetos para opinarem a respeito do edifício a ser levantado; se se trata de construção de navios recorrem a carpinteiros náuticos... Porém se qualquer outra pessoa, que eles não consideram profissional, se abalançar a dar conselhos, por mais belo que seja, ou rico, ou de boa família, não somente não lhes dão ouvidos, como se riem dele e o pateiam, até que, atemorizado com a assuada, desista de falar ou o retirem do recinto. É assim que eles se comportam, sempre que se trata de questões técnicas. Quando, porém, a deliberação diz respeito à administração da cidade, qualquer indivíduo pode levantar-se para emitir opinião, quer seja carpinteiro, quer seja ferreiro, sapateiro, mercador ou marinheiro, rico ou pobre, nobre ou vil, indiferentemente, sem que ninguém apresente objeção, como nos casos anteriores, por pretenderem dar conselhos sem haverem estudado em parte alguma essa matéria nem poderem declarar os professores com quem a tivessem aprendido, prova evidente de que não consideram que a política possa ser ensinada. E não somente nas reuniões públicas eles procedem desse modo; na vida privada, também, nossos melhores e mais sábios cidadãos são incapazes de transmitir a alguém a virtude que lhes é própria. Péricles, por exemplo, pai destes dois moços, deu-lhes ótimos professores de tudo o que pode ser ensinado; mas, na matéria em que ele mesmo é sábio, não só não lhes dá lições como não os confiou a nenhum professor para esse fim, deixando-os soltos, como animais sagrados, para pastarem livremente e ver se, por acaso, venham a deparar com a virtude. Mas depois que te ouvi afirmar o contrário, sinto-me vacilante em minhas convicções, por estar certo de que tua grande experiência é que te leva a essa conclusão, não só pelo que aprendeste com os outros, como pelo que descobristes por ti mesmo. Assim, caso te disponhas a demonstrar-nos que a virtude pode ser ensinada, não guardes só para ti esse conhecimento; revele-o a nós.
PROTÁGORAS – É o que vou fazer, Sócrates, de muito bom grado. Mas, que preferis: falar-vos eu como um velho que se dirige a jovens e contar-vos uma história, ou expor o assunto sob a forma de dissertação?

Quase todos os presentes foram de opinião que ele o fizesse como bem entendesse.


PLATÃO, PROTÁGORAS, 316b–320c, tradução de Carlos Alberto Nunes, Edições Melhoramentos, 1970.

FILOSOFIA POLÍTICA - Sofistas: a arte política pode ser ensinada? – Texto 2


SÓCRATES - ... Caso te disponhas a demonstrar-nos que a virtude pode ser ensinada, não guardes só para ti esse conhecimento; revele-o a nós.
PROTÁGORAS – É o que vou fazer, Sócrates, de muito bom grado. Mas, que preferis: falar-vos eu como um velho que se dirige a jovens e contar-vos uma história, ou expor o assunto sob a forma de dissertação?

Quase todos os presentes foram de opinião que ele o fizesse como bem entendesse.

PROTÁGORAS – Penso que será mais interessante desenvolver-vos o mito. Houve um tempo em que só haviam deuses, sem que ainda existissem criaturas mortais. Quando chegou o momento determinado pelo Destino, para que estas fossem criadas, os deuses plasmaram nas entranhas da terra, utilizando-se de uma mistura de terra e fodo, acrescida dos elementos que ao fogo e à terra se associam. Ao chegar o tempo certo de tirá-los para a luz, incumbiram Prometeu e Epimeteu de provê-los do necessário e de conferir-lhes as qualidades adequadas a cada um. Epimeteu, porém, pediu a Prometeu que deixasse a seu cargo a distribuição. Depois de concluída, disse ele, farás a revisão final. Tendo alcançado o seu assentimento, passou a executar o plano. Nessa tarefa, a alguns ele atribuiu força sem velocidade; dotando de velocidade os mais fracos; a outros deu armas; para os que deixara com natureza desarmada, imaginou diferentes meios de preservação: os que vestiu com pequeno corpo, dotou de asas, para fugirem, ou os proveu de algum refúgio subterrâneo; os corpulentos encontravam salvação nas próprias dimensões. Desse modo agiu com todos, aplicando sempre o critério da compensação. Tomou essas precauções, para evitar que alguma espécie viesse a desaparecer... Como, porém, Epimeteu carecia de reflexão, distribuiu, sem o perceber, todas as qualidades de que dispunha, e, tendo ficado sem ser beneficiada a geração dos homens, viu-se, por fim, sem saber o que fazer com ela. Encontrando-se nessa perplexidade, chegou Prometeu para inspecionar a divisão e verificou que os animais se achavam regularmente providos de tudo; somente o homem se encontrava nu, sem calçados, nem coberturas, nem armas... Não sabendo Prometeu que meio inventar para assegurar ao homem a salvação, roubou de Hefesto e de Atena a sabedoria da arte juntamente com o fogo – pois, sem o fogo e os deu ao homem... Não demorou, e começaram a coordenar os sons e as palavras, e engenhar casas, vestes, calçados e leitos, e a procurar na terra os alimentos. Providos desse modo, a princípio viviam os homens dispersos; não havia cidade; por isso, eram dizimados pelos animais selvagens, dada sua inferioridade em relação a estes; as artes mecânicas chegavam para assegurar-lhes os meios de subsistência, porém eram inoperantes na luta contra os animais, visto carecerem eles, ainda, da arte política, da qual faz parte a arte militar. À vista disso, experimentaram reunir-se, fundando cidades, para poderem sobreviver. Mas, quando se juntavam, justamente por carecerem da arte política, causavam danos uns aos outros, com o que voltavam a dispersar-se e a serem destruídos como antes. Preocupado Zeus com o futuro da nossa geração, mandou que Hermes levasse aos homens o pudor e a justiça, como princípio ordenador das cidades e laço de aproximação entre os homens. Hermes, então, perguntou a Zeus de que modo deveria dar aos homens pudor e justiça: distribui-los-ei como foram distribuídas as artes? Estas foram distribuídas da seguinte maneira: a um só homem com o conhecimento da medicina basta para muitos que a ignoram, verificando-se a mesma coisa com todas as outras artes. Devo proceder desse modo com o pudor e a justiça, ou reparti-los entre todos os homens igualmente? Entre todos, disse-lhe Zeus, para que todos participem deles, pois as cidades não poderão subsistir, se o pudor e a justiça forem privilégio de poucos, como se dá com a demais artes. E mais, estabelece em meu nome a seguinte lei: que todo homem incapaz de pudor e de justiça sofrerá a pena capital, por ser considerado o flagelo da sociedade.
   Dessa maneira, Sócrates, e por tal motivo julgam todos, e também os atenienses, que quando se trata de problemas relativos à virtude da arte da construção, ou de qualquer outra profissão mecânica, somente poucos podem participar de suas deliberações, e se alguém, estranho a esse pequeno número, se aventura a emitir opinião, não o toleram, como disseste, e com razão, segundo penso. Quando, porém, vão deliberar sobre a virtude política, em que tudo se processa apenas em função da justiça e da temperança, é muito natural que admitam todos os cidadãos, por ser de necessidade que todos participem dessa virtude, sem a qual nenhuma cidade poderia subsistir. Essa é a razão, Sócrates, da diferença assinalada.
Penso haver demonstrado que eles têm razão em aceitar a opinião de qualquer pessoa, a respeito dessa virtude, por acreditarem que todos dela participam; agora, que apesar disso não a consideram um dom natural, ou efeito do acaso, porém algo que pode ser adquirido pelo estudo e aplicação, é o que procurarei demonstrar. Em verdade, ninguém se zanga com quem apresenta algum defeito natural ou acidental, nem repreende, castiga ou procura corrigir o portador desse defeito, para que deixe de ser o que é, mas apenas se comiseram dele.Com relação aos feios, aos pequenos de estatura, quem seria tão insensato para proceder dessa maneira? É que todos sabem, quero crer, que em tais coisas, tanto com relação às boas qualidades como aos seus contrários, só influi nos homens a natureza e o acaso. Mas, quanto aos bens que eles julgam só poder serem adquiridos pelo estudo, aplicação e exercício, se alguém não os possui, aí é que surge a indignação, as repreensões e os castigos, contando-se entre aqueles a injustiça, a impiedade e o conjunto do que se opõe às virtudes políticas. Neste passo, não há quem não se mostre indignado nem se alargue em repreensões, evidentemente por acreditar que essa virtude se aprende por meio de estudo e aplicação. Se refletires um pouquinho, Sócrates, na força da expressão “punir os culpados”, chegarás à conclusão de que os homens estão convencidos de que essa virtude pode ser ensinada. É certo que ninguém pune os autores de injustiças pela simples consideração ou motivo de haverem cometido injustiça... Quem se dispõe a punir judiciosamente, não inflige o castigo por causa de falta cometida no passado – pois não poderá evitar que o que foi feito deixe de estar feito – porém com vistas ao futuro, para que nem o culpado volte a delinquir, nem os que assistem ao castigo venham a cometer falta idêntica. Essa maneira de pensar implica a convicção de que a virtude pode ser ensinada. O castigo é aplicado a coibição do crime: eis o modo de pensar de todas as pessoas que aplicam penalidades, tanto particularmente como em público, Todos os homens condenam e castigam os que eles consideram criminosos, os atenienses, teus concidadãos, tão bem quanto os demais. Assim, do que disseste se infere que os próprios atenienses são de parecer que a virtude pode ser adquirida e ensinada. Têm razão os teus concidadãos em admitir que ferreiros e sapateiros participem de suas reuniões para deliberarem sobre matéria política, e que considerem que a virtude pode ser adquirida e ensinada, é o que, Sócrates, se não me iludo, te foi cabalmente demonstrado.

PLATÃO, PROTÁGORAS, 320c–324d, tradução de Carlos Alberto Nunes, Edições Melhoramentos, 1970.





PLATÃO – O MITO DA CAVERNA - TEORIA DO CONHECIMENTO


SÓCRATES – Imagina nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoço, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, semelhante ao tapume que os exibidores de marionetes dispõem entre eles e o público, acima do qual manobram as marionetes e apresentam o espetáculo.
GLAUCO – Estou a ver.
SÓCRATES – Visiona agora ao longo deste muro, homens que transportam toda espécie de objetos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de espécie de lavor; como é natural, dos que transportam, uns falam, outros seguem calados.
GLAUCO – Estranho quadro e estranhos prisioneiros de que tu falas.
SÓCRATES – Semelhante a nós. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projetadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
GLAUCO – Como não, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida.
SÓCRATES – E os objetos transportados, não se passa o mesmo com eles?
GLAUCO – Sem dúvida.
SÓCRATES – Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objetos reais, quando designavam o que viam?
GLAUCO – Necessariamente.
SÓCRATES – E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
GLAUCO – Por Zeus, que sim!
SÓCRATES – De qualquer modo, pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objetos.
GLAUCO – Necessariamente.
SÓCRATES – Considera pois o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados de sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objetos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?
GLAUCO – Muito mais.
SÓCRATES – Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refugio junto aos objetos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
GLAUCO – Seria assim.
SÓCRATES – E se arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até a luz do sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objetos?
GLAUCO – Não poderia, de fato, pelo menos de repente.
SÓCRATES – Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse, ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para a imagens dos homens e dos outros objetos, refletidas na agua, e, por último, para os próprios objetos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
GLAUCO – Pois não!
SÓCRATES – Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
GLAUCO – Necessariamente.
SÓCRATES – Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.
GLAUCO – É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
SÓCRATES – Meu caro Glauco, este quadro deve agora aplicar-se a tudo quanto dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão, e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa... Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a ideia de Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para ser sensato na vida particular e pública.
GLAUCO – Concordo também, até onde sou capaz de seguir a tua imagem.
SÓCRATES – Temos então de pensar o seguinte sobre esta matéria, se é verdade o que dissemos: a educação não é o que alguns apregoam que ela é. Dizem eles que introduzem a ciência numa alma em que ela não existe, como se introduzissem a vista em olhos cegos.
GLAUCO – Dizem, realmente.
SÓCRATES – A presente discussão indica a existência dessa faculdade na alma e de um órgão pelo qual aprende; como um olho que não fosse possível voltar das trevas para a luz, senão juntamente com todo o corpo, do mesmo modo esse órgão deve ser desviado, juntamente com a alma toda, das coisas que se alteram, até ser capaz de suportar a contemplação do Ser e da parte mais brilhante do Ser. A isso chamamos o bem. Ou não?
GLAUCO – Chamamos.
SÓCRATES – A educação seria, por conseguinte, a arte desse desejo, a maneira mais fácil e mais eficaz de fazer dar a volta a esse órgão, não a de o fazer obter a visão, pois já a tem, mas, uma vez que ele não está na posição correta e não olha para onde deve, dar-lhe os meios para isso.
GLAUCO – Acho que sim.


PLATÃO, A República, livro VII, 514a – 518e.

PLATÃO – ANALOGIA DA LINHA - TEORIA DO CONHECIMENTO

SÓCRATES – Supõe então uma linha cortada em duas partes desiguais; corta novamente cada um dos segmentos segundo a mesma proporção, o da espécie visível e o da espécie inteligível; e obterás, no mundo visível, segundo a sua claridade ou obscuridade relativa, uma secção, a das imagens. Chamo imagens [eikón], em primeiro lugar, às sombras; seguidamente, aos reflexos nas águas, e àqueles que se formam em todos os corpos compactos, lisos e brilhantes, e a tudo o mais que for do mesmo gênero, se estás a entender-me.
GLAUCO – Entendo, sim.
SÓCRATES – Supõe agora outra secção, da qual esta era a imagem, a que nos abrange a nós, seres vivos, e a todas as plantas e toda a espécie de artefatos.
GLAUCO – Suponho.
SÓCRATES – Acaso consentirias em aceitar que o visível se divide no que é verdadeiro e no que não o é, e que, tal como a opinião está para o saber assim está a imagem para o modelo?
GLAUCO – Aceito perfeitamente.
SÓCRATES – Examina agora de que maneira se deve cortar a secção do inteligível.
GLAUCO – Como?
SÓCRATES – Na parte anterior, a alma, servindo-se, como se fossem imagens, dos objetos que então eram imitados, é forçada a investigar a partir de hipóteses, sem poder caminhar para o princípio, mas para a conclusão; ao passo que, na outra parte, a que conduz ao princípio absoluto, parte da hipótese, e, dispensando as imagens que havia no outro, faz caminho só com o auxílio de ideias.
GLAUCO – Não percebi bem o que estiveste a dizer.
SÓCRATES – Vamos lá outra vez – disse eu – que compreenderás melhor o que afirmei anteriormente. Suponho que sabes que aqueles que se ocupam da geometria, da aritmética,
Das ciências desse gênero, admitem o par e o ímpar, as figuras, três espécies de ângulos, e outras irmãs destas, segundo o campo da cada um. Estas coisas dão-nas por sabidas, e, quando as usam como hipóteses, não acham que ainda seja necessário prestar contas disto a si mesmos nem aos outros, uma vez que são evidentes para todos. E partindo daí e analisando todas as fases, e tirando consequências, atingem o ponto a cuja investigação se tinha abalançado.
GLAUCO – Isso, sei-o perfeitamente.
SOCRATES – Logo, sabes também que se servem de figuras visíveis e estabelecem acerca delas os seus raciocínios, sem contudo pensarem neles, mas naquilo com o que se parecem; fazem os seus raciocínios por causa do quadrado em si ou da diagonal em si, mas não daquela cuja imagem traçaram, e do mesmo modo quanto às restantes figuras. Aquilo que eles modelam ou desenham, de que existem as sombras e os reflexos na água, servem-se disso como se fossem imagens, procurando ver o que não pode avistar-se, senão pelo pensamento.
GLAUCO – Falas verdade.
SÓCRATES – Portanto, era isto o que eu queria dizer com a classe do inteligível, que a alma é obrigada a servir-se de hipóteses ao procurar investiga-la, sem ir ao princípio, pois não pode elevar-se acima das hipóteses, mas utilizando como imagens os próprios originais dos quais eram feitas as imagens pelos objetos da secção anterior, pois esses também, em comparação com as sombras, eram considerados e apreciados como mais claros.
GLAUCO – Compreendo que te referes ao que se passa na geometria e nas ciências afins dessa.
SÓCRATES – Aprende então o que quero dizer com o outro segmento do inteligível, daquele que o raciocínio atinge pelo poder da dialética, fazendo das hipóteses não princípios, mas hipóteses de fato, uma espécie de degraus e de pontos de apoio, para ir até àquilo que não admite hipóteses, que é o princípio de tudo, atingido o qual desce, até chegar à conclusão, sem se servir em nada de qualquer dado sensível, mas passando das ideias/Formas [idea/eidos] umas às outras, e terminando em ideias/Formas.
GLAUCO – Compreendo, mas não o bastante – pois me parece que é uma tarefa cerrada, essa de que falas – que queres determinar que é mais claro o conhecimento do ser e do inteligível adquirido pela ciência da dialética do que pelas chamadas ciências, cujos princípios são hipóteses; os que as estudam são forçados a fazê-lo, pelo pensamento, e não pelos sentidos; no entanto, pelo fato de as examinarem sem subir até ao princípio, mas a partir de hipóteses, parece-te que não têm inteligência desses fatos, embora eles sejam inteligíveis com um primeiro princípio. Parece-me que chamas entendimento, e não inteligência, o modo de pensar dos geômetras e de outros cientistas, como se o entendimento fosse algo de intermediário entre a opinião e a inteligência.
SÓCRATES – Apreendeste perfeitamente a questão – observei eu –. Pega agora nas quatro operações da alma e aplica-as aos quatro segmentos: no mais elevado, a inteligência, no segundo, o entendimento; ao terceiro entrega a (crença), e ao último a suposição, e coloca-os por ordem, atribuindo-lhes o mesmo grau de clareza que os seus respectivos objetos têm de verdade.

PLATÃO, A República, Livro VI, 509d-e – 511e.