sábado, 18 de fevereiro de 2017

PLATÃO – ANALOGIA DA LINHA - TEORIA DO CONHECIMENTO

SÓCRATES – Supõe então uma linha cortada em duas partes desiguais; corta novamente cada um dos segmentos segundo a mesma proporção, o da espécie visível e o da espécie inteligível; e obterás, no mundo visível, segundo a sua claridade ou obscuridade relativa, uma secção, a das imagens. Chamo imagens [eikón], em primeiro lugar, às sombras; seguidamente, aos reflexos nas águas, e àqueles que se formam em todos os corpos compactos, lisos e brilhantes, e a tudo o mais que for do mesmo gênero, se estás a entender-me.
GLAUCO – Entendo, sim.
SÓCRATES – Supõe agora outra secção, da qual esta era a imagem, a que nos abrange a nós, seres vivos, e a todas as plantas e toda a espécie de artefatos.
GLAUCO – Suponho.
SÓCRATES – Acaso consentirias em aceitar que o visível se divide no que é verdadeiro e no que não o é, e que, tal como a opinião está para o saber assim está a imagem para o modelo?
GLAUCO – Aceito perfeitamente.
SÓCRATES – Examina agora de que maneira se deve cortar a secção do inteligível.
GLAUCO – Como?
SÓCRATES – Na parte anterior, a alma, servindo-se, como se fossem imagens, dos objetos que então eram imitados, é forçada a investigar a partir de hipóteses, sem poder caminhar para o princípio, mas para a conclusão; ao passo que, na outra parte, a que conduz ao princípio absoluto, parte da hipótese, e, dispensando as imagens que havia no outro, faz caminho só com o auxílio de ideias.
GLAUCO – Não percebi bem o que estiveste a dizer.
SÓCRATES – Vamos lá outra vez – disse eu – que compreenderás melhor o que afirmei anteriormente. Suponho que sabes que aqueles que se ocupam da geometria, da aritmética,
Das ciências desse gênero, admitem o par e o ímpar, as figuras, três espécies de ângulos, e outras irmãs destas, segundo o campo da cada um. Estas coisas dão-nas por sabidas, e, quando as usam como hipóteses, não acham que ainda seja necessário prestar contas disto a si mesmos nem aos outros, uma vez que são evidentes para todos. E partindo daí e analisando todas as fases, e tirando consequências, atingem o ponto a cuja investigação se tinha abalançado.
GLAUCO – Isso, sei-o perfeitamente.
SOCRATES – Logo, sabes também que se servem de figuras visíveis e estabelecem acerca delas os seus raciocínios, sem contudo pensarem neles, mas naquilo com o que se parecem; fazem os seus raciocínios por causa do quadrado em si ou da diagonal em si, mas não daquela cuja imagem traçaram, e do mesmo modo quanto às restantes figuras. Aquilo que eles modelam ou desenham, de que existem as sombras e os reflexos na água, servem-se disso como se fossem imagens, procurando ver o que não pode avistar-se, senão pelo pensamento.
GLAUCO – Falas verdade.
SÓCRATES – Portanto, era isto o que eu queria dizer com a classe do inteligível, que a alma é obrigada a servir-se de hipóteses ao procurar investiga-la, sem ir ao princípio, pois não pode elevar-se acima das hipóteses, mas utilizando como imagens os próprios originais dos quais eram feitas as imagens pelos objetos da secção anterior, pois esses também, em comparação com as sombras, eram considerados e apreciados como mais claros.
GLAUCO – Compreendo que te referes ao que se passa na geometria e nas ciências afins dessa.
SÓCRATES – Aprende então o que quero dizer com o outro segmento do inteligível, daquele que o raciocínio atinge pelo poder da dialética, fazendo das hipóteses não princípios, mas hipóteses de fato, uma espécie de degraus e de pontos de apoio, para ir até àquilo que não admite hipóteses, que é o princípio de tudo, atingido o qual desce, até chegar à conclusão, sem se servir em nada de qualquer dado sensível, mas passando das ideias/Formas [idea/eidos] umas às outras, e terminando em ideias/Formas.
GLAUCO – Compreendo, mas não o bastante – pois me parece que é uma tarefa cerrada, essa de que falas – que queres determinar que é mais claro o conhecimento do ser e do inteligível adquirido pela ciência da dialética do que pelas chamadas ciências, cujos princípios são hipóteses; os que as estudam são forçados a fazê-lo, pelo pensamento, e não pelos sentidos; no entanto, pelo fato de as examinarem sem subir até ao princípio, mas a partir de hipóteses, parece-te que não têm inteligência desses fatos, embora eles sejam inteligíveis com um primeiro princípio. Parece-me que chamas entendimento, e não inteligência, o modo de pensar dos geômetras e de outros cientistas, como se o entendimento fosse algo de intermediário entre a opinião e a inteligência.
SÓCRATES – Apreendeste perfeitamente a questão – observei eu –. Pega agora nas quatro operações da alma e aplica-as aos quatro segmentos: no mais elevado, a inteligência, no segundo, o entendimento; ao terceiro entrega a (crença), e ao último a suposição, e coloca-os por ordem, atribuindo-lhes o mesmo grau de clareza que os seus respectivos objetos têm de verdade.

PLATÃO, A República, Livro VI, 509d-e – 511e.




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