sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Sobre a importância da Educação para a formação da Cidade Justa em Platão


A justiça ou virtude, no homem, é o governo dos apetites e da cólera pela razão; essa mesma teoria, antes de ser aplicada ao indivíduo, é aplicada à Cidade, concebida como um conjunto hierarquizado de funções, cada qual com sua dýnamis e sua areté.
A pólis (Cidade) possui três classes sociais: a econômica (agricultores, comerciantes e artesãos), a militar (ou dos guerreiros) e a legislativa (ou dos magistrados/governantes/filósofos). Se a classe econômica governar (oligarquia, e monarquia, quando o rei vem da classe econômica) a Cidade estará voltada para a acumulação de riquezas, para uma vida de luxos e prazeres e para lutas econômicas sem fim. Neste caso, a Cidade haverá de ser injusta pois sua finalidade estará confundida com uma má atualização da areté (virtude) da classe econômica. Se a classe militar ou dos guerreiros governar a Cidade estará lançada em guerras intermináveis, tanto externas quanto internas. Neste caso, a Cidade haverá de ser injusta pois sua finalidade estará confundida com uma má atualização da areté (virtude) dos guerreiros. Mesmo quando a classe legislativa ou dos magistrados governa há o risco de a Cidade ser injusta. Isso pode ocorrer quando os magistrados são corrompidos pela classe econômica ou quando são ameaçados pela classe militar. Neste caso, a Cidade haverá de ser injusta pois a classe dos governantes não se encontrará em condições apropriadas para desenvolver e praticar a areté (virtude) que lhe é própria.
Tal como ocorre no indivíduo, também na Cidade a justiça decorre da perfeita atualização da areté própria aos indivíduos de cada classe social. Ou seja, se o indivíduo justo é aquele no qual a parte racional da alma governa a parte irascível e a apetitiva, a Cidade justa será aquela na qual a classe dos magistrados está em condições de orientar e pôr limites, isto é, de governar, a classe militar e a econômica. Mas para que uma tal distribuição de funções seja devidamente garantida e exercida, cada uma das três classes sociais deve ser educada para exercer com excelência as funções que lhes são próprias. Nisso se revela a importância fundamental da educação, para Platão, no que diz respeito à constituição da Cidade justa.
A classe econômica deve ser educada para exercer exclusivamente a função de garantir a sobrevivência da Cidade. A busca por riquezas, luxos e prazeres, própria à natureza dos indivíduos que compõem esta classe, deve ser mantida dentro de certos limites através do cultivo da virtude da temperança (moderação). A classe militar, por sua vez, deve ser educada para exercer exclusivamente a função de garantir a proteção da Cidade contra os perigos internos e externos. O prazer na guerra e na luta, visando a honra e a glória, próprio à natureza dos indivíduos que compõem esta classe, deve ser mantido dentro de certos limites através do cultivo da virtude da coragem (prudência), de modo que aos guerreiros seja garantida a capacidade de julgar a melhor maneira de enfrentar os perigos que eventualmente ameacem a Cidade. Por fim, a educação da classe dos magistrados, os quais devem ser educados para governar, e nos quais deve ser cultivada a sabedoria, se apresenta como a mais importante, e também como a mais longa, pois nela se inclui tanto a educação da classe econômica como a da classe militar, seguindo ainda um longo percurso após as duas primeiras etapas. Vejamos de modo mais pontual como ocorre este processo:



“Até a idade de sete anos, todas as crianças, de todas as classes e de ambos os sexos, recebem a mesma educação: ginástica, dança, jogos para aprendizado dos rudimentos da matemática e da leitura, poesia épica para o conhecimento dos heróis (mas Platão expulsa Homero e Hesíodo de sua Cidade porque descrevem os deuses e heróis com vícios que não servem à educação do cidadão). Aos sete anos, as crianças passam por uma seleção: as menos dotadas ficam com famílias da classe econômica, enquanto as mais dotadas prosseguirão. Agora, são alfabetizados, iniciam os estudos das artes marciais e o treino militar (com novos conhecimentos matemáticos, necessários à arte da guerra), que irão até os vinte anos, quando os rapazes e as moças passarão por novos exames e nova seleção. Os menos dotados ficarão na classe dos guardiães, enquanto os mais dotados iniciarão os estudos para a administração do Estado. Estudam, agora, as matemáticas: aritmética, geometria, estereometria, astronomia e música, isto é, acústica e harmonia. É o aprendizado das ciências dianoéticas, puramente intelectuais, de formação do raciocínio discursivo e do pensamento hipotético-dedutivo. Aos trinta anos, uma nova seleção é feita. Os que se mostrarem menos aptos ocuparão funções subalternas da administração pública e de comando militar; os mais aptos iniciarão o estudo principal, para o qual foram preparados durante trinta anos: a dialética. Aos trinta e cinco anos, serão submetidos a uma nova prova; se aprovados, iniciam os estudos da ética, da física e da política. Passarão continuamente por exercícios e provas que fortaleçam o intelecto e a moral, já ocuparão alguns postos de alta administração até que, aos cinquenta anos, passam pelo exame final. Se aprovados, tornam-se magistrados e dirigentes políticos. Os aprovados, portanto, são filósofos... Os dirigentes políticos, conhecedores das ideias, portadores da ciência política e da mais alta racionalidade, formam a pequena elite intelectual que governa a Cidade segundo a justiça. A razão domina a coragem que domina a concupiscência. A cidade justa é, pois, aquela onde o filósofo governa, o militar defende e os que estão ligados às atividades econômicas proveem a sociedade. O Estado justo possui quatro virtudes cívicas, três delas que correspondem a cada uma das classes – temperança [moderação], coragem [prudência] e sabedoria [conhecimento verdadeiro] – e a quarta, mais importante e da qual dependem as outras três: a justiça (harmonia e hierarquia das funções). A razão governa a Cidade, que por isso é virtuosa e perfeita, isto é, excelente.” (Chauí, Introdução à História da Filosofia: dos Pré-socráticos a Aristóteles).

Texto adaptado a partir do livro Introdução à História da Filosofia: dos Pré-socraticos a Aristóteles, de Marilena Chauí.