segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Política segundo Protágoras - Platão

Sócrates: Vou começar, Protágoras, pela finalidade Hipócrates, aqui presente, deseja entrar para a tua escola e diz que gostaria de conhecer as vantagens que obteria com teu ensino. Eis tudo o que temos a dizer.
Protágoras: Meu jovem, a vantagem que obterás com minhas lições é que, depois de passares um dia comigo, voltarás para casa melhor do que eras; no dia seguinte a mesma coisa, e assim, todos os dias farás progressos, sempre para melhor.
Sócrates então pede que Protágoras seja mais preciso na sua resposta e este acrescenta: “Eu só ensino a meus discípulos a ciência que eles procuram; esta ciência é a prudência, que lhes ensinará, nos negócios domésticos, a melhor forma de administrar a própria casa, e nos negócios da cidade (pólis) os tornará melhores para agir e falar por ela.”
Sócrates: Terei compreendido bem tua explicação? Referes-te então à arte política e dedicas-te a formar bons cidadãos?
Protágoras: Isso mesmo, Sócrates; esta é a ciência à qual me dedico.  
Sócrates, então, passa a questionar Protágoras, sobre a real possibilidade de se ensinar a virtude da mesma forma como se ensinam outras artes, como a da medicina, ou a de tocar flauta, e desafia Protágoras a demonstrar que ensinar a arte da política é, de fato, possível.
Protágoras: Pois bem, Sócrates. Mas, o que preferes? Que faça a minha demonstração contando uma fábula, como um avô conta histórias aos netos, ou discutindo a questão, ponto por ponto?
Como os presentes ao diálogo respondessem que Protágoras tratasse a questão como preferisse, Protágoras responde: “Parece que contar a fábula será mais agradável para todos”
E, assim, passa a contar o que se tornou célebre como o “Mito de Protágoras”.
Eis o resumo da história?
[...]

Os deuses haviam terminado a criação das várias criaturas (animais) do mundo. Mas tinham que dar-lhes vidas. Para tanto, chamaram dois irmãos – Prometeu e Epimeteu – para realizarem a seguinte tarefa: distribuir os dons para as diversas espécies, de maneira equitativa para que se garantisse que uma espécie não acabasse por destruir a outra. Epimeteu convence o irmão a deixá-lo fazer a distribuição dos dons e depois chamar Prometeu para conferir a obra. Epimeteu fez a partilha, dando a uns a força, e não a velocidade; a outros, a velocidade, mas não a força; deu recursos a alguns, e não a outros, a quem doou outros meios de sobrevivência. [...] Estes cuidados visavam evitar a extinção de cada raça.
Quando Prometeu veio examinar a distribuição dos recursos, viu as várias criaturas bem providas de tudo, enquanto o homem encontrava-se nu, descalço, sem proteção ou armas. Sem saber o que fazer, roubou dos deuses o domínio do fogo e das artes e presenteou-o ao homem. Assim, o homem ficou com as técnicas para se conservar vivo, mas sem a arte da política.
Por estes favores aos homens, parece que Prometeu foi severamente punido mais tarde.
Com o que tinha, o homem articulou a linguagem, construiu casas, inventou a agricultura. Mas, isolados, continuavam frágeis diante dos perigos da natureza. E, quando procuravam reunir-se em segurança, fundando cidades, faziam mal uns aos outros, pois não tinham os saberes da política, e assim, se dispersavam e acabavam por morrer.
Então, Zeus, temendo que a nossa espécie se extinguisse, encarregou Hermes de levar aos homens os dons do pudor e da justiça como norma para a convivência a ligar os homens pelos laços da civilidade.
Depois de estabelecer que o pudor e o senso de justiça fossem repartidos a todos os homens sem exceção, ordena que, em seu nome, todo homem incapaz de pudor e justiça “seja exterminado como se fosse uma peste na sociedade.”
E assim, a humanidade sobreviveu e progrediu.
Em seguida, Protágoras apresenta seus argumentos, tratando a questão “ponto por ponto”. Afirma que, em relação às artes, concorda que os profissionais não admitam que amadores deem palpite. “Mas, quando se delibera sobre política, que se apoia no senso da justiça e na temperança, é adequado admitir todo tipo de gente a opinar. Pois é necessário que todos tenham parte na virtude da civilidade. Senão, não poderia existir a cidade.”
Depois, quanto à possibilidade de ensinar a virtude política, oferece outros argumentos:
“No ensino da virtude, a tarefa dos pais começa desde os primeiros anos e estende-se até a morte [...]. Cada ato, cada palavra serve de ocasião para uma lição: ‘isto é justo, dizem-lhe, aquilo é injusto; isto é belo, aquilo vergonhoso; isto agrada aos deuses, aquilo desagrada; faça isto, não faça aquilo’. [...] Depois, os pequenos são mandados à escola [...]. Ali conhecem as muitas normas, muitas histórias de louvor aos heróis antigos. É que se espera que a criança os imite e busque se assemelhar a eles.”
“Pelo fato de todos ensinarem a virtude, cada um na sua oportunidade, parece que ninguém a ensina. É o mesmo que se dá ao procurar um professor específico para ensinar a falar grego (nossa língua materna). Não existe tal professor.”
Depois da exposição da fábula e dos argumentos, Sócrates vira-se para o candidato a discípulo de Protágoras e exclama: “Hipócrates, filho de Apolodoro, como agradeço me fazeres vir a este encontro! Por nada no mundo trocaria o prazer de ter ouvido este discurso de Protágoras.

Texto extraido do Caderno do Aluno, 3° Colegial, volume 1, Secretaria da Educação do Estado de São Paulo

Texto 7 - Platão - Sobre a "natureza humana"

Sócrates: ... Proclamarei agora que o melhor e mais justo é também o mais feliz, é aquele que tem a natureza de um rei, governa a si mesmo como tal; enquanto o mais perverso e injusto é também o mais infeliz, sendo de natureza tirânica e governando a si mesmo e à cidade como um tirano.
Sócrates: Se assim como a cidade, que está dividida em três partes, a alma de cada indivíduo tem três elementos, a nossa tese pode ser demonstrada de outro modo.
Glauco: Qual seria?
Sócrates: Eis o que penso. Se há três partes, parece haver também três tipos de prazer específicos a cada uma delas. E, da mesma maneira, três modelos de desejos e impulsos.
Glauco: Como Assim?
Sócrates: O primeiro elemento é aquele pelo qual o homem aprende, o segundo é o que o faz irascível, e o terceiro, que possui diferentes formas, tal que não podemos encontrar uma denominação única e adequada, designamos pelo que o caracteriza melhor, é o desejo, que o impulsiona a buscar alimento, bebida, amor e outros prazeres do mesmo tipo, assim como a riqueza, já que é por meio dela que se podem satisfazer esses outros desejos.
Glauco: Tens razão.
Sócrates: Se considerarmos que o prazer do homem desse tipo se encontra no lucro, poderíamos, para fins de nossa discussão, encontrar uma noção única que caracterizasse esse elemento da alma e deixasse essa ideia mais clara para nós. Proponho assim denominar esse tipo de homem como aquele que busca o ganho e a satisfação, pois acho esse o nome mais adequado.
Glauco: É o que parece.
Sócrates: E não dissemos que, devido ao elemento irascível, está sempre buscando o sucesso, a glória e o triunfo?
Glauco: Sim, de fato.
Sócrates: Se o denominarmos, então, amigo do sucesso e da glória, não seria esse um nome correto?
Glauco: Sim, perfeitamente correto.
Sócrates: Em relação à parte cognitiva, não parece evidente a todos que é o que impele a conhecer a verdade tal como ela é, preocupando-se menos com o sucesso e a glória?
Glauco: Certo.
Sócrates: E se chamarmos de amigo do saber, não estaremos lhe dando o nome adequado?
Glauco: Sem dúvida.
Sócrates: E não é verdade que as almas ou são governadas por este elemento, ou por um dos outros dois?
Glauco: Sim.
Sócrates: Portanto, podemos caracterizar três classes de indivíduos: o filósofo, o ambicioso e o amigo do ganho.
Glauco: Com certeza.
Sócrates: E haverá um tipo de prazer correspondente a cada uma dessas classes?
Glauco: Sim, de fato.
Sócrates: E como sabes, se perguntássemos a cada um desses indivíduos qual a vida melhor, cada um afirmaria ser a sua. O amigo do Ganho dirá que, em comparação com o que ele recebe, o prazer da glória e do saber não são nada, a menos que lucre com isso.
Glauco: Sim, é o que dirá.
Sócrates: O ambicioso considerará o ganho como algo vulgar e o saber, quando traz glórias, vago e inútil.
Glauco: É verdade.
Sócrates: O filósofo, por sua vez, não dará nenhuma importância aos outros prazeres comparados ao conhecimento da verdade e ao que se obtém quando se alcança este saber. Considera as demais satisfações inferiores e as dispensaria se pudesse.
Glauco: Podemos estar certos disso.
Sócrates: Uma vez que discutimos a vida de cada um desses indivíduos, não com o objetivo de decidir sobre qual a mais honesta ou desonesta, melhor ou pior, mas sim qual a mais agradável e prazerosa, como saber qual deles tem razão?
Glauco: Não sei responder.
Sócrates: Pois vamos considerar o seguinte: quais características mais importantes para julgar bem? Não são a experiência, a sabedoria e o raciocínio? Haveria outros critérios melhores do que estes?
Glauco: Isso não seria possível.
Sócrates: Reflita então qual dos três indivíduos tem mais experiência de todos os prazeres que examinamos. Se o amigo do ganho buscasse conhecer a verdade, obteria ele mais experiência do conhecimento do que o filósofo do prazer do lucro?
Glauco: O filósofo se encontra na situação mais vantajosa, porque ele necessariamente experimentou outros prazeres desde a infância. O amigo do ganho, porém, em toda a sua vivência, não terá necessariamente provado a doçura do saber e o conhecimento da verdade, e mesmo que o quisesse não lhe seria fácil.
Sócrates: Por conseguinte, o filósofo leva vantagem sobre o amigo do ganho, por ter experimentado os dois tipos de prazeres.
Glauco: Exatamente.
Sócrates: E terá ele maior experiência em relação às honras do que o ambicioso em relação ao saber?
Glauco: Não, os três experimentam a honra na medida em que alcançam seus objetivos. Tanto o rico como o ambicioso e o sábio têm seus admiradores e recebem honrarias, o que faz com que todos tenham essa experiência. Mas só o filósofo é capaz do prazer que resulta da contemplação do ser.
Sócrates: Logo, por sua experiência, ele é capaz de julgar melhor do que os outros.
Glauco: Muito melhor.
Sócrates: Ele é também o único que reúne experiência e sabedoria.
Glauco: Certamente.
Sócrates: Além disso, a faculdade que é instrumento do juízo não pertence nem ao ambicioso, nem ao amigo do ganho, mas ao filósofo.
Glauco: De que faculdade se trata?
Sócrates: Da razão, que afirmamos ser necessária para julgar.
Glauco: Sim.
Sócrates: E a razão é o instrumento específico do filósofo.
Glauco: Seguramente.
Sócrates: Se a riqueza e o lucro fossem os melhores critérios para julgar, os elogios e as críticas do amigo do ganho seriam necessariamente os mais confiáveis.
Glauco: Certamente.
Sócrates: E se honra, o sucesso e a coragem fossem os critérios, não seria o juízo do ambicioso e bem-sucedido o melhor?
Glauco: Com certeza.
Sócrates: Mas, já que o juízo depende da experiência, da sabedoria e razão...
Glauco: Então necessariamente o mais verdadeiro é o que o filósofo e amigo da razão aprovam.
Sócrates: Assim concluímos que os prazeres da parte inteligível da alma são os melhores dos três e é mais feliz o homem governado por este elemento.

Platão
A República

Texto 6 - Nietzsche e o problema da CONSCIÊNCIA

O problema da consciência (ou, mais precisamente, do tornar-se consciente) só nos aparece quando começamos a entender em que medida poderíamos passar sem ela; e agora a fisiologia e o estudo dos animais nos colocam neste começo de entendimento (necessitaram de dois séculos, portanto, para alcançar a premonitória suspeita de Leibniz). Pois nós poderíamos pensar, sentir, querer, recordar, poderíamos igualmente "agir" em todo sentido da palavra: e, não obstante, nada disso precisaria "entrar na nossa consciência" (como se diz figuradamente). A vida inteira seria possível sem que, por assim dizer, ela se olhasse no espelho: tal como, de fato, ainda hoje a parte predominante da vida nos ocorre sem esse espelho -- também da nossa vida pensante, sensível, querente, por mais ofensivo que isto soe para um filósofo mais velho. Para que então consciência, quando no essencial é supérflua? Bem, se querem dar ouvidos à minha resposta a essa pergunta a à sua conjectura talvez extravagante, parece-me que a sutileza e a força da consciência estão sempre relacionadas à capacidade de comunicação de uma pessoa (ou animal), e a capacidade de comunicação, por sua vez, à necessidade de comunicação; mas não, entenda-se, que precisamente o indivíduo mesmo, que é mestre justamente em comunicar e tornar compreensível suas necessidades, também seja aquele que em suas necessidades mais tivesse de recorrer aos outros. Parece-me que é assim no tocante a raças e correntes de gerações: onde a necessidade, a indigência, por muito tempo obrigou os homens a se comunicarem, a compreenderem uns aos outros de forma rápida e sutil, há enfim um excesso dessa virtude e arte da comunicação, como uma fortuna que gradualmente foi juntada e espera um herdeiro que prodigamente a esbanje (-- os chamados artistas são esses herdeiros, assim como os oradores, pregadores, escritores, todos eles pessoas que sempre vêm no final de uma longa cadeia, "frutos tardios", na melhor acepção do termo, e, como foi dito, por natureza esbanjadores). Supondo que esta observação seja correta, posso apresentar a conjectura de que a consciência desenvolveu-se apenas sob a pressão da necessidade de comunicação -- de que desde o início foi necessária e útil apenas entre uma pessoa e outra (entre a que comanda e a que obedece, em especial), e também se desenvolveu apenas em proporção ao grau dessa utilidade. Consciência é, na realidade, apenas uma rede de ligação entre as pessoas -- apenas como tal ela teve de se desenvolver: um ser solitário e predatório não necessita dela. O fato de nossas ações, pensamentos, sentimentos, mesmo movimentos nos chegarem à consciência -- ao menos parte deles --, é consequencia de uma terrível obrigação que por longuíssimo tempo governou o ser humano: ele precisava, sendo o animal mais ameaçado, de ajuda, proteção, precisava de seus iguais, tinha de saber exprimir seu apuro e fazer-se compreensível -- e para isso tudo ele necessitava antes de "consciência", isto é, "saber" o que lhe faltava, "saber" como se sentia, "saber" o que pensava. Pois, dizendo-o mais uma vez: o ser humano, como toda criatura viva, pensa continuamente, mas não o sabe; o pensar que se torna consciente é apenas a parte menor, a mais superficial, a pior, digamos: -- pois apenas esse pensar consciente ocorre em palavras, ou seja, em signos de comunicação, com o que se revela a origem da própria consciência. Em suma, o desenvolvimento da linguagem e o desenvolvimento da consciência andam lado a lado. Acrescente-se que não só a linguagem serve de ponte entre um ser humano e outro, mas também o olhar, o toque, o gesto; o tomar-consciência das impressões de nossos sentidos em nós, a capacidade de fixá-las e como que situá-las fora de nós, cresceu na medida em que aumentou a necessidade de transmiti-las a outros por meio de signos. O homem inventor de signos é, ao mesmo tempo, o homem cada vez mais consciente de si, apenas como animal social o homem aprendeu a tomar consciência de si -- ele o faz ainda, ele o faz cada vez mais. -- Meu pensamento, como se vê, é que a consciência não faz parte realmente do existência individual do ser humano, mas antes daquilo que nele é natureza comunitária, gregária; que, em consequencia, apenas em ligação com a utilidade comunitária e gregária ela se desenvolveu sutilmente, e que, portanto, cada um de nós, com toda a vontade que tenha de entender a si próprio da maneira mais individual possível, de "conhecer-se a si mesmo", sempre traz à consciência justamente o que não possui de individual, o que nele é "médio" -- que nosso pensamento mesmo é continuamente suplantado [dominado], digamos, pelo caráter da consciência -- pelo gênio da espécie" que nela domina -- a traduzido de volta para a perspectiva gregária. Todas as nossas ações, no fundo, são pessoais de maneira incomparável, única, ilimitadamente individuais, não há dúvida; mas, tão logo as traduzimos para a consciência, não parecem mais sê-lo. Este é o verdadeiro perspectivismo, como eu o entendo: a natureza da consciência animal ocasiona que o mundo de que podemos nos tornar conscientes seja só um mundo generalizado, vulgarizado - que tudo o que se torna consciente por isso mesmo torna-se raso, ralo, relativamente tolo, geral, signo, marca de rebanho, que a todo tornar-se consciente está relacionado uma grande, radical corrupção, falsificação, superficialização e generalização. Afinal, a consciência crescente é um perigo; e quem vive entre os mais conscientes europeus sabe até que é uma doença”. 

Nietzsche,
A Gaia ciência

Texto 4 - Sobre a utilidade da Filosofia

Para que serve a Filosofia? Qual é a sua utilidade? Para responder a essas perguntas precisamos antes fazer algumas outras perguntas: o que entendemos por útil? Quem nos dá critérios com base nos quais consideramos algumas coisas úteis e outras inúteis? Conhecemos de fato esses critérios? Paramos para pensar sobre eles? Tomamos conscientemente a decisão de aceita-los? Por que perguntamos sobre a utilidade de certas coisas e não de outras? Haveria pessoas ou grupos interessados em mostrar algumas coisas como úteis e outras como inúteis? Quando dizemos que, para nós, uma determinada coisa não serve para nada, estamos expressando um conhecimento efetivo sobre essa coisa ou, na verdade, apenas reproduzimos a opinião geral ou uma visão hegemônica a respeito dela? Estamos agindo com autonomia e liberdade? Poderíamos formular ainda inúmeros outros questionamentos derivados daquele inicialmente apresentado. E, ao fazê-lo, já estaríamos nos situando dentro da Filosofia, isto é, já estaríamos, em um certo sentido, filosofando. Afinal, filosofar é, também não aceitar como verdadeira qualquer ideia sem antes submetê-la à dúvida, à investigação, à reflexão crítica e rigorosa. Ora, isso significa que, para demonstrar com consistência a utilidade ou inutilidade da Filosofia, ou de qualquer outra coisa, já teríamos que filosofar.

Texto extraído do Caderno do Aluno, 3° Colegial, volume 1, Secretaria da Educação do Estado de São paulo.

Texto 3 - Filosofia como Reflexão

A forma pela qual a Filosofia busca alcançar a sophia (sophia se opõe à doxa, que em grego significa “opinião”, podendo, portanto, ser entendido como “conhecimento verdadeiro”) é por meio da reflexão. Mas o que é refletir?
Como nos lembra o professor Dermival Saviani: “se toda reflexão é pensamento, nem todo pensamento é reflexão”. O pensamento é um ato corriqueiro, singelo, espontâneo, que realizamos descompromissadamente a todo instante, até mesmo sem perceber. A reflexão, por sua vez, é uma atitude mais consciente, mais comprometida, que implica pensar mais profundamente sobre um determinado assunto, repensá-lo, problematiza-lo, submetendo-o à dúvida, à crítica, à análise, buscando seu verdadeiro significado.
Assim, o pensamento pode ser reflexo ou não. Acontece que nem toda reflexão é filosófica. Segundo Saviani, para isso ela precisa satisfazer, ao mesmo tempo, a pelo menos três exigências:

-- Ser radical, isto é, analisar em profundidade o problema em questão, buscando chegar às suas raízes, aos seus fundamentos.

-- Ser rigorosa, ou seja, proceder com coerência, de forma sistemática, segundo um método bem definido para propiciar conclusões válidas e bem fundamentadas.

-- E ser de conjunto, isto é, tomar o objeto em questão não de forma isolada e abstrata, mas em uma perspectiva de totalidade, ou seja, levando em consideração os diversos fatores que, em um dado contexto, o determinam e o condicionam.

Além disso, vale lembrar que filosofar implica questionar o senso comum. Para tanto, é preciso utilizar certos conceitos e teorias necessários para a compreensão mais aprofundada dos temas e problemas sobre os quais se vai refletir. Ora, como estes conceitos e teorias estão contidos nas obras dos filósofos, é importante estudar tais obras, não para memorizar mecanicamente, mas para compreendê-las e, com base nesta compreensão, questionar o senso comum e transformar nossas representações primeiras sobre diferentes temas da vida cotidiana, da vida em sociedade.
Mas, ao entrarmos em contato com a obra de um filósofo, não aprendemos apenas os conceitos por ele desenvolvidos. Aprendemos também o seu jeito de pensar, de raciocinar, de argumentar, de organizar as ideias, enfim, o seu “estilo reflexivo”, o que também nos ajuda a melhorar cada vez mais nosso próprio jeito de pensar.
É dessa forma, estudando o pensamento dos filósofos e nos exercitando mais e mais na prática da reflexão que nos tornamos cada vez mais filósofos.

Texto extraído do Caderno do Aluno, 3° colegial, volume 1, Secretaria da Educação do Estado de São Paulo

Texto 2 - FILÓSOFOS E "FILÓSOFOS" (Diferenças entre o Filósofo que todos são e o Filósofo profissional ou técnico)

Se “todos os homens são ‘filósofos’”, como quer Gramsci, qual é, então, a diferença entre o filosofar de uma pessoa comum e o de um filósofo profissional ou especialista? O próprio autor esclarece:
“O filósofo profissional ou técnico não só ‘pensa’ com maior rigor lógico, com maior coerência, com maior espírito de sistema do que os outros homens, mas conhece toda a história do pensamento, isto é, sabe as razões do desenvolvimento que o pensamento sofreu até ele e está em condições de retomar os problemas a partir do ponto em que eles se encontram após terem sofrido a mais alta tentativa de solução etc. Ele tem, no campo do pensamento, a mesma função que nos diversos campos científicos têm os cientistas”
Trocando em miúdos, podemos dizer que o filósofo especialista: pensa, reflete, raciocina observando mais cuidadosamente as regras da lógica e os procedimentos metodológicos que utiliza; conhece a história do pensamento, isto é, a história da Filosofia; é capaz de analisar os problemas de seu tempo à luz da contribuição dos filósofos do passado que já se debruçaram sobre eles.
Mas se existe essa diferença entre o filósofo especialista e o não especialista, por que então afirmar que “todos os homens são ‘filósofos’”? Justamente para combater e destruir aquele preconceito de que a Filosofia é uma atividade muito difícil e restrita a uma minoria.
É importante perceber que a propagação desse preconceito cumpre uma função política conservadora, na medida em que afasta a Filosofia do contato com as massas, com o povo, com as pessoas mais simples. Dessa forma, impedidas de se apropriar dos conceitos e das teorias elaboradas pelos filósofos, as pessoas ficam desprovidas dessas ferramentas intelectuais que lhes permitiria superar mais facilmente o senso comum e adquirir um conhecimento mais crítico e elaborado da realidade em que vivem.
Além disso, cabe afirmar que todos os homens são “filósofos” para deixar claro que todas as pessoas são potencialmente capazes de avançar de um “filosofar” espontâneo, assistemático, restrito ao bom senso, para um filosofar mais elaborado e rigoroso, semelhante ao praticado pelos filósofos especialistas.

Texto extraído do Caderno do Aluno, 3° Colegial, volume 1, Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

Texto 1 - TODOS SÃO FILÓSOFOS

Antonio Gramsci, um filósofo do século passado, já alertava para a necessidade de se combater o preconceito muito difundido de que a Filosofia é uma atividade intelectual muito difícil e, por isso, restrita a uma minoria de inteligência supostamente privilegiada. Isso porque, para ele, em um certo sentido, “todos os homens são ‘filósofos’”, pois, de algum modo, todas as pessoas, sem distinção, independentemente de seu grau de escolaridade, lidam, convivem, trabalham com a Filosofia e a utilizam no seu dia a dia, mesmo que não se apercebam disso. Afinal, a Filosofia está presente “na linguagem, no senso comum, no bom senso, na religião”, enfim, “em todo sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ser e agir” que caracteriza o que convencionalmente se denomina de “folclore” [conhecimento tradicional, popular] e do qual todos participam.
A Filosofia está presente na linguagem porque esta não é pura e simplesmente um amontoado de “palavras gramaticalmente vazias de conteúdo”. Ao contrário, ela é um “conjunto de noções e conceitos determinados”, muitos dos quais derivados da Filosofia, como vimos nas frases apresentadas. Portanto, a Filosofia está presente na linguagem que utilizamos, mesmo que não tenhamos consciência disso. Daí por que, para Gramsci: “Linguagem significa também cultura e Filosofia (ainda que no nível do senso comum).
O senso comum é o conjunto de valores, crenças, opiniões, preferências, que constitui a nossa visão de mundo e que orienta nossas ações e escolhas cotidianas. Em geral é assimilado acriticamente, sem qualquer questionamento. A exemplo do que acontece com a linguagem, muitos desses valores e crenças têm origem na Filosofia, mas nós os assimilamos espontaneamente, sem nos darmos conta de sua origem. Simplesmente pensamos e vivemos de uma determinada maneira, acreditamos em certo grupo de valores, defendemos alguma posição política, ideológica ou religiosa, e assim por diante, sem, no entanto, nos preocuparmos em fundamentar nossas opiniões. Ao contrário, contentamo-nos com argumentos superficiais, muitas vezes inconsistentes ou contraditórios.
O “bom senso”, por sua vez, “coincide com a Filosofia”. Enquanto o senso comum é acrítico, espontâneo, irrefletido, o bom senso implica refletir, tomar consciência de que os acontecimentos possuem uma dimensão racional e que, portanto, devem ser compreendidos e enfrentados também de forma racional, a fim de se obter uma orientação consciente para a ação, evitando se deixar levar por “impulsos instintivos e violentos”.
Esse “bom senso” é o que Gramsci chamou de “núcleo sadio do senso comum”. Ou seja, mesmo no nível do senso comum é possível refletir, pensar de maneira crítica sobre a realidade, tomar consciência dela e agir de modo coerente com essa consciência. E isso, de certo modo, já é “filosofar”, pelo menos um filosofar ao nível do senso comum. De fato, não é raro vermos pessoas simples, às vezes com pouca ou nenhuma escolaridade, que revelam um entendimento aguçado e bem elaborado da realidade em que vivem.
Finalmente, a Filosofia está presente na religião porque também na experiência religiosa nos deparamos com questões e conceitos (Deus, alma, morte, etc.) que foram e continuam sendo objeto da reflexão e da elaboração dos filósofos.
Portanto, se a filosofia está contida na linguagem, no senso comum, no bom senso, e na religião, podemos dizer então que ela está presente em todas as dimensões da vida humana, sendo, portanto, familiar a todas as pessoas. Afinal, toda atividade humana, mesmo aquelas que são predominantemente práticas (as diversas formas de trabalho manual, por exemplo), é sempre acompanhada de um pensar, de um saber, em suma, de um trabalho intelectual, racional, reflexivo. É nesse sentido que podemos afirmar que “todos os homens são filósofos”.

Texto extraído do Caderno do Aluno, 3° colegial, volume 1, Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.