Sócrates: Vou começar,
Protágoras, pela finalidade Hipócrates, aqui presente, deseja entrar para a tua
escola e diz que gostaria de conhecer as vantagens que obteria com teu ensino.
Eis tudo o que temos a dizer.
Protágoras: Meu jovem, a vantagem
que obterás com minhas lições é que, depois de passares um dia comigo, voltarás
para casa melhor do que eras; no dia seguinte a mesma coisa, e assim, todos os
dias farás progressos, sempre para melhor.
Sócrates então
pede que Protágoras seja mais preciso na sua resposta e este acrescenta: “Eu só
ensino a meus discípulos a ciência que eles procuram; esta ciência é a
prudência, que lhes ensinará, nos negócios domésticos, a melhor forma de
administrar a própria casa, e nos negócios da cidade (pólis) os tornará melhores para agir e falar por ela.”
Sócrates: Terei compreendido bem tua
explicação? Referes-te então à arte política e dedicas-te a formar bons
cidadãos?
Protágoras: Isso mesmo, Sócrates;
esta é a ciência à qual me dedico.
Sócrates, então,
passa a questionar Protágoras, sobre a real possibilidade de se ensinar a
virtude da mesma forma como se ensinam outras artes, como a da medicina, ou a
de tocar flauta, e desafia Protágoras a demonstrar que ensinar a arte da política
é, de fato, possível.
Protágoras: Pois bem, Sócrates. Mas,
o que preferes? Que faça a minha demonstração contando uma fábula, como um avô
conta histórias aos netos, ou discutindo a questão, ponto por ponto?
Como os presentes
ao diálogo respondessem que Protágoras tratasse a questão como preferisse,
Protágoras responde: “Parece que contar a fábula será mais agradável para
todos”
E, assim, passa a contar o que se
tornou célebre como o “Mito de Protágoras”.
Eis o resumo da história?
[...]
Os deuses haviam terminado a criação
das várias criaturas (animais) do mundo. Mas tinham que dar-lhes vidas. Para
tanto, chamaram dois irmãos – Prometeu e Epimeteu – para realizarem a seguinte
tarefa: distribuir os dons para as diversas espécies, de maneira equitativa
para que se garantisse que uma espécie não acabasse por destruir a outra.
Epimeteu convence o irmão a deixá-lo fazer a distribuição dos dons e depois
chamar Prometeu para conferir a obra. Epimeteu fez a partilha, dando a uns a
força, e não a velocidade; a outros, a velocidade, mas não a força; deu
recursos a alguns, e não a outros, a quem doou outros meios de sobrevivência.
[...] Estes cuidados visavam evitar a extinção de cada raça.
Quando Prometeu veio examinar a
distribuição dos recursos, viu as várias criaturas bem providas de tudo,
enquanto o homem encontrava-se nu, descalço, sem proteção ou armas. Sem saber o
que fazer, roubou dos deuses o domínio do fogo e das artes e presenteou-o ao
homem. Assim, o homem ficou com as técnicas para se conservar vivo, mas sem a
arte da política.
Por estes favores aos homens, parece
que Prometeu foi severamente punido mais tarde.
Com o que tinha, o homem articulou a
linguagem, construiu casas, inventou a agricultura. Mas, isolados, continuavam
frágeis diante dos perigos da natureza. E, quando procuravam reunir-se em
segurança, fundando cidades, faziam mal uns aos outros, pois não tinham os
saberes da política, e assim, se dispersavam e acabavam por morrer.
Então, Zeus, temendo que a nossa
espécie se extinguisse, encarregou Hermes de levar aos homens os dons do pudor
e da justiça como norma para a convivência a ligar os homens pelos laços da
civilidade.
Depois de estabelecer que o pudor e
o senso de justiça fossem repartidos a todos os homens sem exceção, ordena que,
em seu nome, todo homem incapaz de pudor e justiça “seja exterminado como se
fosse uma peste na sociedade.”
E assim, a humanidade sobreviveu e
progrediu.
Em seguida, Protágoras apresenta
seus argumentos, tratando a questão “ponto por ponto”. Afirma que, em relação
às artes, concorda que os profissionais não admitam que amadores deem palpite.
“Mas, quando se delibera sobre política, que se apoia no senso da justiça e na
temperança, é adequado admitir todo tipo de gente a opinar. Pois é necessário
que todos tenham parte na virtude da civilidade. Senão, não poderia existir a
cidade.”
Depois, quanto à possibilidade de
ensinar a virtude política, oferece outros argumentos:
“No ensino da virtude, a tarefa dos
pais começa desde os primeiros anos e estende-se até a morte [...]. Cada ato,
cada palavra serve de ocasião para uma lição: ‘isto é justo, dizem-lhe, aquilo
é injusto; isto é belo, aquilo vergonhoso; isto agrada aos deuses, aquilo
desagrada; faça isto, não faça aquilo’. [...] Depois, os pequenos são mandados
à escola [...]. Ali conhecem as muitas normas, muitas histórias de louvor aos
heróis antigos. É que se espera que a criança os imite e busque se assemelhar a
eles.”
“Pelo fato de todos ensinarem a
virtude, cada um na sua oportunidade, parece que ninguém a ensina. É o mesmo
que se dá ao procurar um professor específico para ensinar a falar grego (nossa
língua materna). Não existe tal professor.”
Depois da exposição da fábula e dos
argumentos, Sócrates vira-se para o candidato a discípulo de Protágoras e
exclama: “Hipócrates, filho de Apolodoro, como agradeço me fazeres vir a este
encontro! Por nada no mundo trocaria o prazer de ter ouvido este discurso de
Protágoras.
Texto extraido do Caderno do Aluno, 3° Colegial, volume 1, Secretaria da Educação do Estado de São Paulo