Sócrates: ... Proclamarei agora que o melhor e mais justo é também o mais feliz, é aquele que tem a natureza de um rei, governa a si mesmo como tal; enquanto o mais perverso e injusto é também o mais infeliz, sendo de natureza tirânica e governando a si mesmo e à cidade como um tirano.
Sócrates: Se assim como a cidade, que está dividida em três partes, a alma de cada indivíduo tem três elementos, a nossa tese pode ser demonstrada de outro modo.
Glauco: Qual seria?
Sócrates: Eis o que penso. Se há três partes, parece haver também três tipos de prazer específicos a cada uma delas. E, da mesma maneira, três modelos de desejos e impulsos.
Glauco: Como Assim?
Sócrates: O primeiro elemento é aquele pelo qual o homem aprende, o segundo é o que o faz irascível, e o terceiro, que possui diferentes formas, tal que não podemos encontrar uma denominação única e adequada, designamos pelo que o caracteriza melhor, é o desejo, que o impulsiona a buscar alimento, bebida, amor e outros prazeres do mesmo tipo, assim como a riqueza, já que é por meio dela que se podem satisfazer esses outros desejos.
Glauco: Tens razão.
Sócrates: Se considerarmos que o prazer do homem desse tipo se encontra no lucro, poderíamos, para fins de nossa discussão, encontrar uma noção única que caracterizasse esse elemento da alma e deixasse essa ideia mais clara para nós. Proponho assim denominar esse tipo de homem como aquele que busca o ganho e a satisfação, pois acho esse o nome mais adequado.
Glauco: É o que parece.
Sócrates: E não dissemos que, devido ao elemento irascível, está sempre buscando o sucesso, a glória e o triunfo?
Glauco: Sim, de fato.
Sócrates: Se o denominarmos, então, amigo do sucesso e da glória, não seria esse um nome correto?
Glauco: Sim, perfeitamente correto.
Sócrates: Em relação à parte cognitiva, não parece evidente a todos que é o que impele a conhecer a verdade tal como ela é, preocupando-se menos com o sucesso e a glória?
Glauco: Certo.
Sócrates: E se chamarmos de amigo do saber, não estaremos lhe dando o nome adequado?
Glauco: Sem dúvida.
Sócrates: E não é verdade que as almas ou são governadas por este elemento, ou por um dos outros dois?
Glauco: Sim.
Sócrates: Portanto, podemos caracterizar três classes de indivíduos: o filósofo, o ambicioso e o amigo do ganho.
Glauco: Com certeza.
Sócrates: E haverá um tipo de prazer correspondente a cada uma dessas classes?
Glauco: Sim, de fato.
Sócrates: E como sabes, se perguntássemos a cada um desses indivíduos qual a vida melhor, cada um afirmaria ser a sua. O amigo do Ganho dirá que, em comparação com o que ele recebe, o prazer da glória e do saber não são nada, a menos que lucre com isso.
Glauco: Sim, é o que dirá.
Sócrates: O ambicioso considerará o ganho como algo vulgar e o saber, quando traz glórias, vago e inútil.
Glauco: É verdade.
Sócrates: O filósofo, por sua vez, não dará nenhuma importância aos outros prazeres comparados ao conhecimento da verdade e ao que se obtém quando se alcança este saber. Considera as demais satisfações inferiores e as dispensaria se pudesse.
Glauco: Podemos estar certos disso.
Sócrates: Uma vez que discutimos a vida de cada um desses indivíduos, não com o objetivo de decidir sobre qual a mais honesta ou desonesta, melhor ou pior, mas sim qual a mais agradável e prazerosa, como saber qual deles tem razão?
Glauco: Não sei responder.
Sócrates: Pois vamos considerar o seguinte: quais características mais importantes para julgar bem? Não são a experiência, a sabedoria e o raciocínio? Haveria outros critérios melhores do que estes?
Glauco: Isso não seria possível.
Sócrates: Reflita então qual dos três indivíduos tem mais experiência de todos os prazeres que examinamos. Se o amigo do ganho buscasse conhecer a verdade, obteria ele mais experiência do conhecimento do que o filósofo do prazer do lucro?
Glauco: O filósofo se encontra na situação mais vantajosa, porque ele necessariamente experimentou outros prazeres desde a infância. O amigo do ganho, porém, em toda a sua vivência, não terá necessariamente provado a doçura do saber e o conhecimento da verdade, e mesmo que o quisesse não lhe seria fácil.
Sócrates: Por conseguinte, o filósofo leva vantagem sobre o amigo do ganho, por ter experimentado os dois tipos de prazeres.
Glauco: Exatamente.
Sócrates: E terá ele maior experiência em relação às honras do que o ambicioso em relação ao saber?
Glauco: Não, os três experimentam a honra na medida em que alcançam seus objetivos. Tanto o rico como o ambicioso e o sábio têm seus admiradores e recebem honrarias, o que faz com que todos tenham essa experiência. Mas só o filósofo é capaz do prazer que resulta da contemplação do ser.
Sócrates: Logo, por sua experiência, ele é capaz de julgar melhor do que os outros.
Glauco: Muito melhor.
Sócrates: Ele é também o único que reúne experiência e sabedoria.
Glauco: Certamente.
Sócrates: Além disso, a faculdade que é instrumento do juízo não pertence nem ao ambicioso, nem ao amigo do ganho, mas ao filósofo.
Glauco: De que faculdade se trata?
Sócrates: Da razão, que afirmamos ser necessária para julgar.
Glauco: Sim.
Sócrates: E a razão é o instrumento específico do filósofo.
Glauco: Seguramente.
Sócrates: Se a riqueza e o lucro fossem os melhores critérios para julgar, os elogios e as críticas do amigo do ganho seriam necessariamente os mais confiáveis.
Glauco: Certamente.
Sócrates: E se honra, o sucesso e a coragem fossem os critérios, não seria o juízo do ambicioso e bem-sucedido o melhor?
Glauco: Com certeza.
Sócrates: Mas, já que o juízo depende da experiência, da sabedoria e razão...
Glauco: Então necessariamente o mais verdadeiro é o que o filósofo e amigo da razão aprovam.
Sócrates: Assim concluímos que os prazeres da parte inteligível da alma são os melhores dos três e é mais feliz o homem governado por este elemento.
Platão
A República
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