A
justiça ou virtude, no homem, é o governo dos apetites e da cólera pela razão;
essa mesma teoria, antes de ser aplicada ao indivíduo, é aplicada à Cidade,
concebida como um conjunto hierarquizado de funções, cada qual com sua dýnamis e sua areté.
A
pólis (Cidade) possui três classes
sociais: a econômica (agricultores, comerciantes e artesãos), a militar (ou dos
guerreiros) e a legislativa (ou dos magistrados/governantes/filósofos). Se a
classe econômica governar (oligarquia, e monarquia, quando o rei vem da classe
econômica) a Cidade estará voltada para a acumulação de riquezas, para uma vida
de luxos e prazeres e para lutas econômicas sem fim. Neste caso, a Cidade
haverá de ser injusta pois sua finalidade estará confundida com uma má
atualização da areté (virtude) da
classe econômica. Se a classe militar ou dos guerreiros governar a Cidade
estará lançada em guerras intermináveis, tanto externas quanto internas. Neste
caso, a Cidade haverá de ser injusta pois sua finalidade estará confundida com
uma má atualização da areté (virtude)
dos guerreiros. Mesmo quando a classe legislativa ou dos magistrados governa há
o risco de a Cidade ser injusta. Isso pode ocorrer quando os magistrados são
corrompidos pela classe econômica ou quando são ameaçados pela classe militar.
Neste caso, a Cidade haverá de ser injusta pois a classe dos governantes não se
encontrará em condições apropriadas para desenvolver e praticar a areté (virtude) que lhe é própria.
Tal
como ocorre no indivíduo, também na Cidade a justiça decorre da perfeita atualização
da areté própria aos indivíduos de cada classe
social. Ou seja, se o indivíduo justo é aquele no qual a parte racional da alma
governa a parte irascível e a apetitiva, a Cidade justa será aquela na qual a
classe dos magistrados está em condições de orientar e pôr limites, isto é, de
governar, a classe militar e a econômica. Mas para que uma tal distribuição de
funções seja devidamente garantida e exercida, cada uma das três classes
sociais deve ser educada para exercer
com excelência as funções que lhes são próprias. Nisso se revela a importância
fundamental da educação, para Platão, no que diz respeito à constituição da
Cidade justa.
A
classe econômica deve ser educada para exercer exclusivamente a função de
garantir a sobrevivência da Cidade. A
busca por riquezas, luxos e prazeres, própria à natureza dos indivíduos que
compõem esta classe, deve ser mantida dentro de certos limites através do
cultivo da virtude da temperança
(moderação). A classe militar, por sua vez, deve ser educada para exercer
exclusivamente a função de garantir a proteção
da Cidade contra os perigos internos e externos. O prazer na guerra e na luta,
visando a honra e a glória, próprio à natureza dos indivíduos que compõem esta
classe, deve ser mantido dentro de certos limites através do cultivo da virtude
da coragem (prudência), de modo que
aos guerreiros seja garantida a capacidade de julgar a melhor maneira de enfrentar os perigos que eventualmente ameacem a
Cidade. Por fim, a educação da classe dos magistrados, os quais devem ser educados para governar, e nos quais deve ser cultivada a sabedoria, se apresenta como a mais
importante, e também como a mais longa, pois nela se inclui tanto a educação da
classe econômica como a da classe militar, seguindo ainda um longo percurso após as duas primeiras etapas.
Vejamos de modo mais pontual como ocorre este processo:
“Até a idade de sete
anos, todas as crianças, de todas as classes e de ambos os sexos, recebem a
mesma educação: ginástica, dança, jogos para aprendizado dos rudimentos da
matemática e da leitura, poesia épica para o conhecimento dos heróis (mas
Platão expulsa Homero e Hesíodo de sua Cidade porque descrevem os deuses e
heróis com vícios que não servem à educação do cidadão). Aos sete anos, as
crianças passam por uma seleção: as menos dotadas ficam com famílias da classe econômica,
enquanto as mais dotadas prosseguirão. Agora, são alfabetizados, iniciam os
estudos das artes marciais e o treino militar (com novos conhecimentos
matemáticos, necessários à arte da guerra), que irão até os vinte anos, quando
os rapazes e as moças passarão por novos exames e nova seleção. Os menos
dotados ficarão na classe dos guardiães, enquanto os mais dotados iniciarão os
estudos para a administração do Estado. Estudam, agora, as matemáticas:
aritmética, geometria, estereometria, astronomia e música, isto é, acústica e
harmonia. É o aprendizado das ciências dianoéticas, puramente intelectuais, de
formação do raciocínio discursivo e do pensamento hipotético-dedutivo. Aos
trinta anos, uma nova seleção é feita. Os que se mostrarem menos aptos ocuparão
funções subalternas da administração pública e de comando militar; os mais
aptos iniciarão o estudo principal, para o qual foram preparados durante trinta
anos: a dialética. Aos trinta e cinco anos, serão submetidos a uma nova prova;
se aprovados, iniciam os estudos da ética, da física e da política. Passarão
continuamente por exercícios e provas que fortaleçam o intelecto e a moral, já
ocuparão alguns postos de alta administração até que, aos cinquenta anos,
passam pelo exame final. Se aprovados, tornam-se magistrados e dirigentes
políticos. Os aprovados, portanto, são filósofos... Os dirigentes políticos,
conhecedores das ideias, portadores da ciência política e da mais alta
racionalidade, formam a pequena elite intelectual que governa a Cidade segundo
a justiça. A razão domina a coragem que domina a concupiscência. A cidade justa
é, pois, aquela onde o filósofo governa, o militar defende e os que estão
ligados às atividades econômicas proveem a sociedade. O Estado justo possui
quatro virtudes cívicas, três delas que correspondem a cada uma das classes –
temperança [moderação], coragem [prudência] e sabedoria [conhecimento verdadeiro] – e a quarta, mais importante e da qual
dependem as outras três: a justiça (harmonia e hierarquia das funções). A razão
governa a Cidade, que por isso é virtuosa e perfeita, isto é, excelente.”
(Chauí, Introdução à História da Filosofia: dos Pré-socráticos a Aristóteles).
Texto adaptado a partir do livro Introdução à História da Filosofia: dos Pré-socraticos a Aristóteles, de Marilena Chauí.
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