A cidade é objeto da preocupação central da filosofia platônica, que sempre toma como horizonte de suas investigações, mesmo as mais especulativas, a melhor maneira de governar a vida comum. Para levar uma vida feliz, a cidade deve realizar uma unidade. Embora a concepção platônica da cidade sofra certo número de modificações nos diálogos, a questão política à qual essas sucessivas abordagens procuram responder permanece sempre idênticas: como unificar uma multiplicidade?
O múltiplo em questão é o dos elementos que compõem a cidade e o das funções e forças diversas que nela se encontram. Contudo, não se trata somente de uma multiplicidade de homens; com efeito – e este é um dos traços característico do pensamento político platônico –, a cidade é composta tanto de homens como de recursos naturais, de bens e de objetos técnicos. Nos limites de um território, são portanto elementos heterogêneos que convém reunir para produzir uma vida comum. A esse objeto complexo que a cidade é corresponde uma atividade de produção e de cuidado, a política. A técnica política deve realizar a unidade da cidade, dando-lhe uma “constituição”, um “regime político” (politeía). Platão não se interessa somente pela distribuição dos poderes da cidade, mas pelas próprias condições de existência de uma cidade una e virtuosa, subordinando a questão da distribuição dos grupos sociais ao interesse da cidade como um todo. Essa investigação supõe um saber adequado do que é a natureza da cidade e do que lhe convém, exatamente como se cumprisse investigar as condições da excelência do indivíduo, aquelas que lhe possibilitam ter uma vida feliz (donde a comparação entre a alma individual e a cidade, que ocupam os livros II a IV da República).
Que é então uma cidade? É a unidade de uma multiplicidade de naturezas, de poderes e de funções distintas vivendo uma vida comum. Para promovê-la, convém dispor juntas essas funções, impedindo que elas se confundam e que se contrariem. Isso supõe uma técnica política, que é uma técnica de um gênero particular, na medida em que sua tarefa não é produzir ou cuidar de um objeto específico, e sim possibilitar a unidade de todos os objetos. No Político, Platão concebe como uma obra técnica, cujo paradigma é um tecido. Assim como se deve entrecruzar a urdidura e a trama para fabricar um tecido, também se deve entrecruzar na cidade cidadãos de temperamentos diferentes. A cidade será, pois, o resultado via os dois meios privilegiados que são a legislação e a produção de opiniões comuns, da reunião de diferentes caracteres e de corpos heterogêneos. Governar é distribuir cidadãos em um território limitado a fim de que cada um deles realize os movimentos e as funções que convém à sua natureza. A cidade ideal, ou justa, deve ser como um corpo equilibrado e como uma alma, regida por um governo sábio. A política torna-se, assim, uma atividade “demiúrgica”, que Platão concebe de maneira semelhante à da fabricação demiúrgica do mundo.
Se a reflexão política tem tamanha importância na filosofia platônica, é porque nela a cidade é definida ao mesmo tempo como condição e como objeto da filosofia, que, se é de fato desejo de uma inteligência da totalidade do real, só pode se exercer através de uma comunidade de cidadãos, de saberes e de obras. A filosofia é um pensamento sobre a cidade.
Texto extraído (e adaptado) do livro Vocabulário de Platão
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