sábado, 18 de fevereiro de 2017

FILOSOFIA POLÍTICA – O ensinamento Sofista – texto 1


SÓCRATES – Protágoras, viemos procurar-te para tratar contigo de certo assunto, eu e Hipócrates aqui presente.
PROTÁGORAS – Desejais falar-me em particular, ou na presença destas pessoas?
SÓCRATES – Para nós é indiferente; depois de ouvires o que nos trouxe aqui, tu mesmo decidirás o que convém fazer.
PROTÁGORAS – Qual é, então, o motivo de me procurardes?
SÓCRATES – Hipócrates que aqui vês, é de nossa cidade, filho de Apolodoro, oriundo de uma casa grande e abastada. Quanto aos dotes naturais, pode competir com os mais distintos moços da mesma idade. Ambicionando, segundo penso, tornar-se figura de relevo em nossa cidade, pareceu-lhe que o melhor meio de alcançar esse propósito seria tomar lições contigo. Vê, portanto, o que é mais conveniente, tratarmos desse assunto em particular, ou na frente de outras pessoas.
PROTÁGORAS – Com razão, Sócrates, te interessaste por mim. Um estrangeiro que procura as grandes cidades e nelas convence a fina flor da juventude a abandonar a companhia de parentes e de estranhos, para ligar-se a ele e vir a lucrar com a sua convivência, precisa tomar algumas precauções. Com isso faz nascer muita inveja, além de provocar inimizades e intrigas de toda natureza. Aliás, sou de opinião que a arte do sofista é muito antiga, mas que os homens das outras eras que a praticavam, com medo dos contratempos da profissão, recorriam a subterfúgios para escondê-la, valendo-se alguns, como Homero e Hesíodo, da poesia; outros mais, como Orfeu e seus discípulos, dos mistérios e oráculos. Sim, alguns, conforme observei, serviram-se até mesmo da arte da ginástica, tal como Icos, e também esse sofista ainda vivo, que não cede a palma a nenhum outro, Heródico. A música também serviu de pretexto para Agátocles, sofista eminentíssimo, assim como para Pitóclides, e para muitos outros. Todos eles, como disse, usavam as respectivas artes à guisa de capa, para os resguardarem da inveja. Eu, porém, não compartilho o modo de pensar deles todos, por estar convencido de que não conseguiram realizar o que pretendiam, pois os homens que nas cidades detém as rédeas do governo não se deixaram iludir com respeito à finalidade de semelhante prática. Quanto ao vulgo, por assim dizer, não percebia nada; limitava-se a elogiar tudo o que eles diziam. Pretender esconder-se, sem o conseguir, e ser surpreendido pelos homens, a simples tentativa já é completa loucura, que só pode suscitar maior animosidade contra eles mesmos... Eis a razão de eu tomar caminho diferente: declaro sem ambages [rodeio, firula] que sou sofista e instruo os homens, convencido de que essa precaução é melhor do que a deles e que mais vale confessar do que negar. Aliás, não deixo de tomar outras medidas que me põe a coberto de incômodos, pelo fato de apresentar-me como sofista. E note-se: há muito tempo exerço essa profissão, pois a soma dos meus anos já vai alta; entre os presentes não há um só de que eu, com a idade que tenho, não pudesse ser pai. Por isso, nada me poderia ser mais agradável, caso concordeis, do que falardes na presença de quantos se acham aí dentro.
SÓCRATES – Percebi que ele desejava mostrar-se e vangloriar-se a Pródico e a Hípias por o termos procurado na qualidade de admiradores dele. Daí, disse-lhe: — E por que não chamarmos, também, Pródico e Hípias, juntamente com seus acompanhantes, para que nos escutem?
PROTÁGORAS – Perfeitamente.

Após todos estarem sentados, começou Protágoras:

PROTÁGORAS – Repete agora, Sócrates, aos presentes, o que há pouco me disse a respeito desse moço.
SÓCRATES – Começarei, Protágoras, expondo o objeto de nossa visita. Hipócrates, aqui presente, deseja muito tomar aulas contigo, e diz que de bom grado ficaria sabendo as vantagens que lhe adviriam de tua companhia. Eis o que temos a dizer.
PROTAGORAS – Jovem, no caso de frequentares minhas aulas, desde o primeiro dia de conversação retornará para casa melhor do que eras, o mesmo acontecendo no dia seguinte e nos subsequentes, acentuando-se cada dia mais o teu progresso. Na minha companhia, Hipócrates, não se ocupará senão com o que se propusera a estudar, quando resolveu me procurar: a prudência nos negócios domésticos, que o capacite a dirigir a sua própria casa, e a sabedoria nos negócios da Cidade.
SÓCRATES – Será que apanhei bem o sentido do que disseste? Quero crer que te referes à arte da política e que prometes formar bons cidadãos.
PROTÁGORAS – É nisso mesmo, Sócrates, que consiste a minha profissão.
SÓCRATES – Possuis uma grande arte, sem dúvida, se é que a possui. Só direi o que penso. Sou de parecer, Protágoras, que isso não pode ser ensinado. Nisso estou de acordo com os demais helenos. No entanto, verifico que quando nos reunimos em assembleias, por precisar a cidade deliberar sobre assunto de construção, mandam chamar arquitetos para opinarem a respeito do edifício a ser levantado; se se trata de construção de navios recorrem a carpinteiros náuticos... Porém se qualquer outra pessoa, que eles não consideram profissional, se abalançar a dar conselhos, por mais belo que seja, ou rico, ou de boa família, não somente não lhes dão ouvidos, como se riem dele e o pateiam, até que, atemorizado com a assuada, desista de falar ou o retirem do recinto. É assim que eles se comportam, sempre que se trata de questões técnicas. Quando, porém, a deliberação diz respeito à administração da cidade, qualquer indivíduo pode levantar-se para emitir opinião, quer seja carpinteiro, quer seja ferreiro, sapateiro, mercador ou marinheiro, rico ou pobre, nobre ou vil, indiferentemente, sem que ninguém apresente objeção, como nos casos anteriores, por pretenderem dar conselhos sem haverem estudado em parte alguma essa matéria nem poderem declarar os professores com quem a tivessem aprendido, prova evidente de que não consideram que a política possa ser ensinada. E não somente nas reuniões públicas eles procedem desse modo; na vida privada, também, nossos melhores e mais sábios cidadãos são incapazes de transmitir a alguém a virtude que lhes é própria. Péricles, por exemplo, pai destes dois moços, deu-lhes ótimos professores de tudo o que pode ser ensinado; mas, na matéria em que ele mesmo é sábio, não só não lhes dá lições como não os confiou a nenhum professor para esse fim, deixando-os soltos, como animais sagrados, para pastarem livremente e ver se, por acaso, venham a deparar com a virtude. Mas depois que te ouvi afirmar o contrário, sinto-me vacilante em minhas convicções, por estar certo de que tua grande experiência é que te leva a essa conclusão, não só pelo que aprendeste com os outros, como pelo que descobristes por ti mesmo. Assim, caso te disponhas a demonstrar-nos que a virtude pode ser ensinada, não guardes só para ti esse conhecimento; revele-o a nós.
PROTÁGORAS – É o que vou fazer, Sócrates, de muito bom grado. Mas, que preferis: falar-vos eu como um velho que se dirige a jovens e contar-vos uma história, ou expor o assunto sob a forma de dissertação?

Quase todos os presentes foram de opinião que ele o fizesse como bem entendesse.


PLATÃO, PROTÁGORAS, 316b–320c, tradução de Carlos Alberto Nunes, Edições Melhoramentos, 1970.

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