SÓCRATES – Protágoras, viemos procurar-te para tratar contigo de certo
assunto, eu e Hipócrates aqui presente.
PROTÁGORAS – Desejais falar-me em particular, ou na presença destas
pessoas?
SÓCRATES – Para nós é indiferente; depois de ouvires o que nos trouxe
aqui, tu mesmo decidirás o que convém fazer.
PROTÁGORAS – Qual é, então, o motivo de me procurardes?
SÓCRATES – Hipócrates que aqui vês, é de nossa cidade, filho de
Apolodoro, oriundo de uma casa grande e abastada. Quanto aos dotes naturais,
pode competir com os mais distintos moços da mesma idade. Ambicionando, segundo
penso, tornar-se figura de relevo em nossa cidade, pareceu-lhe que o melhor
meio de alcançar esse propósito seria tomar lições contigo. Vê, portanto, o que
é mais conveniente, tratarmos desse assunto em particular, ou na frente de
outras pessoas.
PROTÁGORAS – Com razão, Sócrates, te interessaste por mim. Um
estrangeiro que procura as grandes cidades e nelas convence a fina flor da juventude
a abandonar a companhia de parentes e de estranhos, para ligar-se a ele e vir a
lucrar com a sua convivência, precisa tomar algumas precauções. Com isso faz
nascer muita inveja, além de provocar inimizades e intrigas de toda natureza.
Aliás, sou de opinião que a arte do sofista é muito antiga, mas que os homens
das outras eras que a praticavam, com medo dos contratempos da profissão,
recorriam a subterfúgios para escondê-la, valendo-se alguns, como Homero e
Hesíodo, da poesia; outros mais, como Orfeu e seus discípulos, dos mistérios e
oráculos. Sim, alguns, conforme observei, serviram-se até mesmo da arte da
ginástica, tal como Icos, e também esse sofista ainda vivo, que não cede a
palma a nenhum outro, Heródico. A música também serviu de pretexto para
Agátocles, sofista eminentíssimo, assim como para Pitóclides, e para muitos
outros. Todos eles, como disse, usavam as respectivas artes à guisa de capa,
para os resguardarem da inveja. Eu, porém, não compartilho o modo de pensar
deles todos, por estar convencido de que não conseguiram realizar o que
pretendiam, pois os homens que nas cidades detém as rédeas do governo não se
deixaram iludir com respeito à finalidade de semelhante prática. Quanto ao
vulgo, por assim dizer, não percebia nada; limitava-se a elogiar tudo o que
eles diziam. Pretender esconder-se, sem o conseguir, e ser surpreendido pelos
homens, a simples tentativa já é completa loucura, que só pode suscitar maior
animosidade contra eles mesmos... Eis a razão de eu tomar caminho diferente: declaro
sem ambages [rodeio, firula] que sou sofista e instruo os homens, convencido de
que essa precaução é melhor do que a deles e que mais vale confessar do que
negar. Aliás, não deixo de tomar outras medidas que me põe a coberto de
incômodos, pelo fato de apresentar-me como sofista. E note-se: há muito tempo
exerço essa profissão, pois a soma dos meus anos já vai alta; entre os
presentes não há um só de que eu, com a idade que tenho, não pudesse ser pai.
Por isso, nada me poderia ser mais agradável, caso concordeis, do que falardes
na presença de quantos se acham aí dentro.
SÓCRATES – Percebi que ele desejava mostrar-se e vangloriar-se a
Pródico e a Hípias por o termos procurado na qualidade de admiradores dele.
Daí, disse-lhe: — E por que não chamarmos, também, Pródico e Hípias, juntamente
com seus acompanhantes, para que nos escutem?
PROTÁGORAS – Perfeitamente.
Após
todos estarem sentados, começou Protágoras:
PROTÁGORAS – Repete agora, Sócrates, aos presentes, o que há pouco me
disse a respeito desse moço.
SÓCRATES – Começarei, Protágoras, expondo o objeto de nossa visita.
Hipócrates, aqui presente, deseja muito tomar aulas contigo, e diz que de bom
grado ficaria sabendo as vantagens que lhe adviriam de tua companhia. Eis o que
temos a dizer.
PROTAGORAS – Jovem, no caso de frequentares minhas aulas, desde o
primeiro dia de conversação retornará para casa melhor do que eras, o mesmo
acontecendo no dia seguinte e nos subsequentes, acentuando-se cada dia mais o
teu progresso. Na minha companhia, Hipócrates, não se ocupará senão com o que
se propusera a estudar, quando resolveu me procurar: a prudência nos negócios
domésticos, que o capacite a dirigir a sua própria casa, e a sabedoria nos
negócios da Cidade.
SÓCRATES – Será que apanhei bem o sentido do que disseste? Quero crer
que te referes à arte da política e que prometes formar bons cidadãos.
PROTÁGORAS – É nisso mesmo, Sócrates, que consiste a minha profissão.
SÓCRATES – Possuis uma grande arte, sem dúvida, se é que a possui. Só
direi o que penso. Sou de parecer, Protágoras, que isso não pode ser ensinado.
Nisso estou de acordo com os demais helenos. No entanto, verifico que quando
nos reunimos em assembleias, por precisar a cidade deliberar sobre assunto de
construção, mandam chamar arquitetos para opinarem a respeito do edifício a ser
levantado; se se trata de construção de navios recorrem a carpinteiros
náuticos... Porém se qualquer outra pessoa, que eles não consideram
profissional, se abalançar a dar conselhos, por mais belo que seja, ou rico, ou
de boa família, não somente não lhes dão ouvidos, como se riem dele e o
pateiam, até que, atemorizado com a assuada, desista de falar ou o retirem do
recinto. É assim que eles se comportam, sempre que se trata de questões
técnicas. Quando, porém, a deliberação diz respeito à administração da cidade,
qualquer indivíduo pode levantar-se para emitir opinião, quer seja carpinteiro,
quer seja ferreiro, sapateiro, mercador ou marinheiro, rico ou pobre, nobre ou
vil, indiferentemente, sem que ninguém apresente objeção, como nos casos
anteriores, por pretenderem dar conselhos sem haverem estudado em parte alguma
essa matéria nem poderem declarar os professores com quem a tivessem aprendido,
prova evidente de que não consideram que a política possa ser ensinada. E não
somente nas reuniões públicas eles procedem desse modo; na vida privada,
também, nossos melhores e mais sábios cidadãos são incapazes de transmitir a
alguém a virtude que lhes é própria. Péricles, por exemplo, pai destes dois
moços, deu-lhes ótimos professores de tudo o que pode ser ensinado; mas, na
matéria em que ele mesmo é sábio, não só não lhes dá lições como não os confiou
a nenhum professor para esse fim, deixando-os soltos, como animais sagrados,
para pastarem livremente e ver se, por acaso, venham a deparar com a virtude.
Mas depois que te ouvi afirmar o contrário, sinto-me vacilante em minhas
convicções, por estar certo de que tua grande experiência é que te leva a essa
conclusão, não só pelo que aprendeste com os outros, como pelo que descobristes
por ti mesmo. Assim, caso te disponhas a demonstrar-nos que a virtude pode ser
ensinada, não guardes só para ti esse conhecimento; revele-o a nós.
PROTÁGORAS – É o que vou fazer, Sócrates, de muito bom grado. Mas, que
preferis: falar-vos eu como um velho que se dirige a jovens e contar-vos uma
história, ou expor o assunto sob a forma de dissertação?
Quase
todos os presentes foram de opinião que ele o fizesse como bem entendesse.
PLATÃO, PROTÁGORAS, 316b–320c, tradução de Carlos Alberto Nunes, Edições Melhoramentos,
1970.
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