domingo, 28 de maio de 2017

A ARTE DO ENCONTRO – Espinosa / Deleuze


           De acordo com Gilles Deleuze, em seu livro sobre a Ética de Espinosa, pode-se dizer que existem dois tipos de encontros. No primeiro, o que ocorre é uma composição entre os corpos. Um corpo, ao se encontrar com o meu, compõe-me. Composição significa que as relações presentes naquele corpo se unem às minhas de tal forma que ambos os corpos se conservam e se prosperam. O único critério determinante é a conveniência.
          Se um encontro convém para ambos os corpos, pode-se dizer que esse encontro é bom; convém, na medida em que produz em mim e no outro um afeto de alegria e de composição. Bom, na ordem dos encontros, significa bom encontro. Um bom encontro aumenta minha potência de agir. Uma afecção (sucessão de diferentes estados do corpo conforme este é afetado pelo encontro com outros corpos) desse tipo gera um afeto de alegria.
          A potência de ser, de agir de um corpo, enquanto poder para ser afetado por outros corpos, busca, por natureza, sempre aquilo que lhe é útil, conveniente, isto é, que preserva sua potência. Ao ser preenchido por um afeto de alegria, que favorece e aumenta sua potência de agir, o poder de ser afetado que constitui um corpo aumenta e se identifica com este aumento de potência proporcionado pelo afeto de alegria. Assim, todo o esforço de um corpo será direcionado para que haja uma manutenção dessa alegria.
          O segundo caso de encontro é aquele em que as relações das partes que constituem um corpo sofrem uma decomposição ao se relacionarem com outros corpos. Um corpo que não convém ao meu corpo gera uma diminuição da minha potência de agir, do poder de ser afetado que me constitui. Esse tipo de encontro gera o afeto de tristeza. Sempre que há um encontro em que há uma diminuição da potência de agir, pelo menos em um dos corpos submetidos a esse encontro, necessariamente esse corpo, que sofreu a diminuição de potência, será afetado pela tristeza. Toda diminuição de potência está relacionada com um afeto de tristeza.
          O poder de ser afetado que constitui a essência de um corpo, mesmo sendo afetado por um encontro que diminui a sua potência, procurará aquilo que lhe seja útil para poder manter outros tipos de encontros que lhe sejam potenciais, ou seja, encontros que lhe aumentem a capacidade de agir e existir. Spinoza chama essa disposição do corpo a preservar sua potência de conatus, isto é, a essência própria, e variável, de cada corpo. A tristeza, para Spinoza, é a passagem de uma perfeição maior a outra menor. A alegria, de forma inversa, é a passagem de uma perfeição menor a outra maior. Toda tristeza só pode ser originada por uma causa externa, pois toda diminuição de potência de existir só pode ser causada por um agente exterior e nunca pela própria potência do conatus (um poder de ser afetado, que constitui a essência de um corpo, jamais buscará a diminuição de sua potência).
          Quando nos relacionamos com alguma coisa que não se compõe conosco, por natureza temos a tendência de destruí-la, ou seja, a tristeza pode nos conduzir ao ódio, que não é mais do que uma tristeza acompanhada da ideia de uma causa exterior. Inversamente, quando nos relacionamos com alguma coisa com a qual nos compomos nossa potência de ser é preenchida por afetos de alegria, que pode nos conduzir ao amor, que é uma alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior.

Iafelice, Henrique. Deleuze devorador de Spinoza: teoria dos afetos e educação, São Paulo: EDUC: FAPESP: 2015. Adaptado.

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