Por toda a
história da filosofia, com raríssimas exceções, as paixões (ou os afetos) foram
vistas como erro, desvios, enganos, por isso deveriam ser mantidas sob controle
para que assim a razão com toda a sua força pudesse exercer seu domínio na
alma. Assim, por apresentar um caráter imprevisível de mudanças de estados e
fluxos, os afetos e as paixões foram reconhecidos como forças caóticas que
distanciavam o homem da razão.
Para Deleuze e
também para Spinoza, é exatamente nessa passagem, nessa transição e nessa
diferença de estados, gerada pelo encontro dos corpos e ideias – pelos afetos
–, que o pensamento pode surgir com toda a sua potência. Como poderia haver
movimento, mudança, transformação e diferença sem um encontro com o diferente,
com o estranho, com o outro pensar?
Muitas vezes a
palavra filosofia é interpretada como “amor à sabedoria”, ou “amor ao saber”.
Parece que tal definição empobrece, e muito, o que ela enquanto disciplina tem
a oferecer. O filósofo não busca algo já dado, já posto, mas sua busca é um
movimento em direção a algo que ele não possui, mas que, ao mesmo tempo, está
“sendo” possuído por ele. É nesse território movente, nesse “sendo”, que não é
nem “não saber”, nem “saber pronto”, já constituído, que habita o filósofo:
este é o seu território, puro devir.
Segundo Spinoza,
há certos tipos de encontros, de afetos, que possibilitam um aumento na
potência de agir e na força de existir de um corpo. É nesse "entre”, nessa
“passagem”, nessa variação contínua que está o próprio movimento da vida. Todo
aprender está sempre em um “entre”, ou seja, o aprender está bem no meio, entre
o não saber e o saber. Dessa forma, todo aprendizado é uma passagem, uma
variação de estados que gira em torno de algo ainda não conhecido para algo
conhecido.
Tanto o
desconhecido (ignorância) como o conhecido (saber) não definem o aprender, pois
a ignorância e o saber são estados de coisas que não possuem movimento. O aprender
diz respeito a movimento e transformação, passagem de estados. Nesse sentido, o
aprender tem relação direta com os afetos, diferentemente do saber que, por ser
um estado determinado e concluído, identifica-se diretamente com conteúdos
representativos do pensar.
A pedagogia da resposta, influenciada pela própria
tradição filosófica, relaciona o aprender com aquilo que já tem forma e
identidade, ou seja, confunde o saber com o aprender. Saber é forma, conteúdo,
substancia, aprendizado concluído e finalizado. Talvez, a título de hipótese,
pode-se dizer que muitos alunos não se sentem estimulados pela pedagogia da
resposta – a qual mantém estreita relação com o saber – pois, indiferente ao
pensar criativo, ao próprio movimento natural do aprender, tal pedagogia não se
abre à incerteza, ao fluxo da experimentação que está na própria essência do
aprender. O
aprender está no meio do saber e do não saber. No meio. Para aprender há que se
mover entre um e outro, sem ficar parado em nenhum dos dois. Aqueles que sabem
e aqueles que não sabem não aprendem, não podem aprender.
Os afetos,
enquanto movimento e passagem de estados, revelam ser o elemento mais íntimo do
aprender. Por afetos Spinoza entende as afecções do corpo – resultante dos
encontros entre os corpos – pelas quais a potência de agir desse mesmo corpo é
aumentada ou diminuída, favorecida ou impedida”. Afetos são, portanto, signos, marcas,
efeitos dos encontros entre os corpos, entre as ideias. Desse modo, não há aprendizado que não seja desvendamento
de signos, de afetos. Não há aprendizagem que não passe por esse processo de
significação.
Iafelice,
Henrique. Deleuze devorador de Spinoza:
teoria dos afetos e educação, p. 33-35. São Paulo: EDUC: FAPESP: 2015. Adaptado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário