domingo, 28 de maio de 2017

O APRENDER COMO DECIFRAÇÃO DE SIGNOS



Por toda a história da filosofia, com raríssimas exceções, as paixões (ou os afetos) foram vistas como erro, desvios, enganos, por isso deveriam ser mantidas sob controle para que assim a razão com toda a sua força pudesse exercer seu domínio na alma. Assim, por apresentar um caráter imprevisível de mudanças de estados e fluxos, os afetos e as paixões foram reconhecidos como forças caóticas que distanciavam o homem da razão.
Para Deleuze e também para Spinoza, é exatamente nessa passagem, nessa transição e nessa diferença de estados, gerada pelo encontro dos corpos e ideias – pelos afetos –, que o pensamento pode surgir com toda a sua potência. Como poderia haver movimento, mudança, transformação e diferença sem um encontro com o diferente, com o estranho, com o outro pensar?
Muitas vezes a palavra filosofia é interpretada como “amor à sabedoria”, ou “amor ao saber”. Parece que tal definição empobrece, e muito, o que ela enquanto disciplina tem a oferecer. O filósofo não busca algo já dado, já posto, mas sua busca é um movimento em direção a algo que ele não possui, mas que, ao mesmo tempo, está “sendo” possuído por ele. É nesse território movente, nesse “sendo”, que não é nem “não saber”, nem “saber pronto”, já constituído, que habita o filósofo: este é o seu território, puro devir.
Segundo Spinoza, há certos tipos de encontros, de afetos, que possibilitam um aumento na potência de agir e na força de existir de um corpo. É nesse "entre”, nessa “passagem”, nessa variação contínua que está o próprio movimento da vida. Todo aprender está sempre em um “entre”, ou seja, o aprender está bem no meio, entre o não saber e o saber. Dessa forma, todo aprendizado é uma passagem, uma variação de estados que gira em torno de algo ainda não conhecido para algo conhecido.
Tanto o desconhecido (ignorância) como o conhecido (saber) não definem o aprender, pois a ignorância e o saber são estados de coisas que não possuem movimento. O aprender diz respeito a movimento e transformação, passagem de estados. Nesse sentido, o aprender tem relação direta com os afetos, diferentemente do saber que, por ser um estado determinado e concluído, identifica-se diretamente com conteúdos representativos do pensar.
A pedagogia da resposta, influenciada pela própria tradição filosófica, relaciona o aprender com aquilo que já tem forma e identidade, ou seja, confunde o saber com o aprender. Saber é forma, conteúdo, substancia, aprendizado concluído e finalizado. Talvez, a título de hipótese, pode-se dizer que muitos alunos não se sentem estimulados pela pedagogia da resposta – a qual mantém estreita relação com o saber – pois, indiferente ao pensar criativo, ao próprio movimento natural do aprender, tal pedagogia não se abre à incerteza, ao fluxo da experimentação que está na própria essência do aprender. O aprender está no meio do saber e do não saber. No meio. Para aprender há que se mover entre um e outro, sem ficar parado em nenhum dos dois. Aqueles que sabem e aqueles que não sabem não aprendem, não podem aprender.
Os afetos, enquanto movimento e passagem de estados, revelam ser o elemento mais íntimo do aprender. Por afetos Spinoza entende as afecções do corpo – resultante dos encontros entre os corpos – pelas quais a potência de agir desse mesmo corpo é aumentada ou diminuída, favorecida ou impedida”. Afetos são, portanto, signos, marcas, efeitos dos encontros entre os corpos, entre as ideias. Desse modo, não há aprendizado que não seja desvendamento de signos, de afetos. Não há aprendizagem que não passe por esse processo de significação.


Iafelice, Henrique. Deleuze devorador de Spinoza: teoria dos afetos e educação, p. 33-35. São Paulo: EDUC: FAPESP: 2015. Adaptado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário