segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Politica e cidadania - Texto 2 - Relações Humanas e o Poder

    Convivendo com outros, os conflitos de vontades e interesses são sempre inevitáveis. No momento do impasse, que é uma luta entre diferentes desejos, um indivíduo quer impor ao outro a sua vontade. Normalmente quem vence esse conflito é aquele mais bem aparelhado: dependendo da circunstância, pode ser o mais forte, o mais inteligente, o mais jovem, o mais bonito...
  A capacidade de transformar as vontades dos outros na sua vontade é aquilo que chamamos de poder. Numa primeira aproximação, o poder seria a capacidade de realizar qualquer ato ou ação; um aspecto importante é que ele pressupõe até mesmo a oposição, constituindo, então, a capacidade de superar essa oposição pela força, impondo-se a ela. De modo geral, o poder seria a potência para realizar determinado desejo ou vontade.
   O jogo do poder apresenta-se, assim, como um jogo de vontade, no qual a vontade de um – o mais forte, por alguma razão – acaba se impondo sobre a vontade de outro ou outros. A noção de poder implica também a capacidade de ter suas ordens obedecidas. Aquele que é investido de poder – um indivíduo ou uma instituição – tem a chance e os instrumentos para potencializar suas vontades, transformando-as em atos.
   Não podemos, entretanto, julgar que a ação do poderoso dá-se unicamente no sentido de subjugar e neutralizar a(s) vontade(s) alheia(s). Embora em casos bastante específicos a ação hegemônica do poder só seja possível por meio da neutralização das demais vontades, de modo geral, o poder age pelo convencimento e pela manipulação das vontades alheias. Assim, em vez de agir pela neutralização das vontades, o poder age muito mais por meio de sua transformação, tomar o conjunto das vontades diferentes e torna-las uma, a vontade do poderoso, com a qual os demais devem concordar.
   Nessa visão clássica do poder, ele é compreendido como uma coisa que se concentra em determinados espaços de um grupo social: o lugar do poder é o Palácio do Governo, é a Câmara dos Deputados, ou mesmo o próprio corpo do rei, que a todos governa.
   Se apenas um tem o poder, todos os outros indivíduos não têm poder algum: é uma sociedade servil. Mas de onde viria o poder desse indivíduo? Porque todos o obedecem?
   Um filósofo do século XVI chamado Etienne de la Boétie, num pequeno livro, o Discurso da servidão voluntária, forneceu a pista para entender a charada: quando um indivíduo manda, seu poder vem não dele mesmo, mas dos outros que se submetem. De sua perspectiva, o que sustenta o tirano não é sua própria autoridade, mas a entrega dos súditos, isto é, a dominação só é possível com o concurso direto dos próprios dominados. Segundo ele, em torno do tirano constrói-se uma rede de interesses. O tirano tem 6 assessores diretos, cada um deles tem mais 60 empregados e assim por diante, de modo que toda a sociedade acaba envolvida nessa rede de interesses.
   Desse modo, o que garante o poder do tirano é uma rede de micropoderes e interesses que se constrói a sua volta, o que, ao invés de enfraquecer esse poder central pela diluição, fortalece-o, sendo seu próprio sustentáculo e sua própria garantia.

   Mas, se os indivíduos se recusarem a servir, acaba o poder do tirano. Portanto, a sociedade servil depende do consentimento dos indivíduos; se eles resolverem não mais obedecer a um rei e solucionar seus próprios problemas políticos, eles podem construir novas formas de relação social.

Politica e cidadania - Texto 1 - Participação: palavra de ordem

Volta e meia, a sociedade chama seus membros para participar. Participar de uma missa, de um torneio esportivo, de uma campanha de aquisição de agasalhos etc. Participação, essa é a palavra de ordem. Porém, será que já paramos para pensar nessa tal participação?
Interessante reparar, antes de mais nada, que o ato de participar nunca é feito sozinho; não é um ato isolado de alguém que não tem companhia, mas algo que fazemos com os outros.
O solidário, que está sempre disposto a participar, porta-se desta maneira: está em comunhão; vive ansioso pelo encontro; faz questão de trocar as suas experiências de vida com os outros. Sabe muito bem que viver é acima de tudo con-viver. O solidário é o companheiro; você já pensou sobre o significado dessa palavra? Ela vem do latim, cum-panere, e significa algo mais ou menos como “aqueles que comem juntos o pão da vida”. Logo, o companheiro, o solidário, é aquele que divide sua vida com os outros, aquele para quem a vida não é apenas uma coexistência com os outros, mas uma verdadeira convivência, um viver com os outros.
Mas há outros que são diferentes: um indivíduo que está sempre em seu canto, não compartilha seus desejos, suas emoções, seus pensamentos, enfim, sua vida com os outros. Pode-se dizer que tal indivíduo é um marginalizado, não por que foi discriminado, mas porque ele mesmo se isolou dos outros. Essa vivência à margem tem como resultado a consideração de que o ser humano pode e, às vezes, até deve se isolar dos demais. Mas como podemos fugir do encontro se, queiramos ou não, estamos sempre partilhando uns com os outros?
O poeta inglês John Donne começou um poema com o verso: “Homem algum é uma ilha.” Somos seres sociais, “animais políticos” como já definiu Aristóteles há 2500 anos atrás, o que nos leva a necessariamente tomar parte de grupos humanos, a viver nossa vida junto a muitas outras pessoas iguais a nós. É por isso que, por mais que queiramos escapar, fugir para uma ilha deserta, a sociedade está sempre atrás de nós. Até podemos nos isolar por alguns instantes, mas, ao irmos para a escola, para o trabalho, para o clube, para a igreja ou para qualquer outro lugar, estaremos encontrando pessoas, estaremos participando de grupos sociais.
O ato de participar é uma condição humana da qual não podemos escapar. Quem pensa que escapa, está iludindo a si mesmo.