ÉTICA
(gr. TÒ í|0iKá; lat. Ethica-,
in. Ethics; fr. Éthique, ai. Ethik, it. Ética). Em geral, ciência
da conduta. Existem duas concepções fundamentais dessa ciência: 1°) a que a
considera como ciência do fim para o qual a conduta dos homens deve ser
orientada e dos meios para atingir tal fim, deduzindo tanto o fim quanto os
meios da natureza do homem; 2°) a que a considera como a ciência do móvel da
conduta humana e procura determinar tal móvel com vistas a dirigir ou
disciplinar essa conduta. Essas duas concepções, que se entremesclaram de
várias maneiras na Antiguidade e no mundo moderno, são profundamente diferentes
e falam duas línguas diversas. A primeira fala a língua do ideal para o qual o
homem se dirige por sua natureza e, por conseguinte, da "natureza",
"essência" ou "substância" do homem. Já a segunda fala dos
"motivos" ou "causas" da conduta humana, ou das
"forças" que a determinam, pretendendo ater-se ao conhecimento dos
fatos. A confusão entre ambos os pontos de vista heterogêneos foi possibilitada
pelo fato de que ambas costumam apresentar-se com definições aparentemente
idênticas do bem. Mas a análise da noção de bem (v.) logo mostra a ambiguidade
que ela oculta, já que bem pode significar ou o que é (pelo fato de que é) ou o
que é objeto de desejo, de aspiração, etc, e estes dois significados
correspondem exatamente às duas concepções de Ética distinguidas acima. De fato, é
característica da concepção 1° a noção de bem como realidade perfeita ou
perfeição real, ao passo que na concepção 2° encontra-se a noção de bem como
objeto de apetição. Por isso, quando se afirma que "o bem é a
felicidade", a palavra "bem" tem um significado completamente
diferente daquele que se encontra na afirmação "o bem é o prazer". A
primeira asserção (no sentido em que é feita, p. ex., por Aristóteles e por S.
Tomás), significa: "a felicidade é o fim da conduta humana, dedutível da
natureza racional do homem", ao passo que a segunda asserção significa
"o prazer é o móvel habitual e constante da conduta humana". Como o
significado e o alcance das duas asserções são, portanto, completamente
diferentes, sempre se deve ter em mente a distinção entre ética do fim e ética
do móvel, nas discussões sobre ética. Tal distinção, ao mesmo tempo que divide
a história da Ética, permite ver como são irrelevantes muitas das discussões a
que deu ensejo e que outra causa não têm senão a confusão entre os dois
significados propostos.
As
doutrinas éticas elaboradas por Platão,
quais sejam, a que se encontra expressa em A República e a que está expressa em
Filebo, pertencem à primeira das concepções que distinguimos. A Ética exposta
em A República é uma Ética das virtudes, e as virtudes são funções da alma
(Rep., I, 353 b) determinadas pela natureza da alma e pela divisão das suas
partes (ilbid., IV, 434 e). O paralelismo entre as partes do Estado e as partes
da alma permite a Platão determinar e definir as virtudes particulares, bem
como a virtude que compreende todas elas: a justiça como cumprimento de cada
parte à sua função (Ibid., 443 d). Analogamente, a Ética de Filebo começa
definindo o bem como forma de vida que mescla inteligência e prazer e sabe
determinar a medida dessa mistura (Fil., 27 d).
A Ética de Aristóteles é, aliás, o
protótipo dessa concepção. Aristóteles determina o propósito da conduta humana
(a felicidade), a partir da natureza racional do homem (Et. nic, I, 7), e
depois determina as virtudes que são condição da felicidade. Por sua vez, a Ética dos estóicos, com a sua máxima
fundamental de "viver segundo a razão", deduz as normas de conduta da
natureza racional e perfeita da realidade (J. STOBEO, Ecl., II, 76, 3; DIÓG.
L., VII, 87). O misticismo neoplatônico
colocou como propósito da conduta humana o retorno do homem ao seu princípio
criador e sua integração com ele. Segundo Plotino,
esse retorno é "o fim da viagem" do homem, é o afastamento de todas
as coisas exteriores, "a fuga de um só para um só", ou seja, do homem
em seu isolamento para a Unidade divina (Enn., VI, 9,11). Por mais diferentes
que sejam as doutrinas mencionadas, em suas articulações internas as
formulações são idênticas, pois: a) determinam a natureza necessária do homem,
b) deduzem de tal natureza o fim para o qual sua conduta deve orientar-se.
Dicionário de Filosofia: NICOLA ABBAGNANO
Dicionário de Filosofia: NICOLA ABBAGNANO
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