quarta-feira, 23 de setembro de 2015

TEXTO 8 - VIRTUDE em Platão

       A definição platônica de virtude não é especificamente antropológica. A areté se diz da excelência de uma função, seja qual for o sujeito dessa função. Dessa maneira, todo objeto técnico tem uma virtude, assim como todo ser vivo. Portanto, o termo “virtude” não qualifica somente a excelência do caráter ou da conduta em circunstâncias precisas, ele também designa a perfeição de uma atividade, seja ela qual for. Há aí um deslocamento e uma extensão consideráveis de um termo que os gregos reservavam para a nobreza da conduta, do caráter, particularmente na ordem da coragem guerreira. Portanto, o uso antropológico e ético do termo, que hoje também é o do termo “virtude”, é abandonado por Platão em proveito de um significado ao mesmo tempo mais vasto (toda função pode ser virtuosa) e mais preciso: a virtude é a coisa benfeita. O conceito de virtude é assim forjado mediante o paradigma técnico de um bom uso para dar uma resposta definitiva a uma questão que permanece, ela sim, ética e política. A questão ateniense à qual Platão pretende responder é a do aprimoramento de si: como se tornar melhor?
            Se, como Platão faz, a virtude não é deduzida do nascimento ou da natureza, ou seja, se a riqueza ou boas disposições físicas e psíquicas não bastam para tornar um homem bom e belo, então a excelência deve ser o resultado de certo exercício, de uma conduta. Em que fundamentar, qual pode ser o critério da virtude e como adquiri-la? A essas perguntas, que são de ordem ética e política, os Diálogos de Platão dão sempre uma única e mesma resposta: a posse de um saber é que dá à virtude seu status. A excelência ética é uma excelência cognitiva [relativo ao conhecimento], ser excelente nada mais é do que saber como sê-lo. A virtude nada mais é que a consequência de um certo saber. É isso que Sócrates defende contra os sofistas, esses preceptores tagarelas que pretendiam, precisamente, “ensinar a virtude” de tal modo que seus alunos soubessem administrar suas casas e governar sua cidade. Se a virtude supõe um saber, passará a ser possível perguntar aos sofistas o que ensinam e o que dispensam para eventualmente desacreditá-los. Contudo, ainda é preciso contrapor-lhes uma definição de excelência ética e política, designando as virtudes que permitem ao homem realizar perfeitamente as funções que lhes são próprias. O princípio disso é assim resumido por Sócrates: “A virtude de cada coisa consiste num ordenamento e numa disposição feliz resultante da ordem.” (Górgias)
            Dos primeiros Diálogos até a exposição acabada de República, Platão propõe as quatro virtudes ditas “cardinais”, que definem a excelência respectiva das quatro principais disposições humanas. Em primeiro lugar está a temperança, que é ao mesmo tempo uma capacidade de bem julgar, um bom senso e um autodomínio que adota sobretudo a forma de um domínio dos prazeres; depois, a coragem, que é uma capacidade de julgar perigos temíveis; e a sabedoria, que é a excelência do conhecimento. Enfim, a justiça pode ser definida como a quarta virtude que acompanha o exercício exclusivo, de cada um, de sua função própria; ela é a virtude que significa o perfeito ordenamento das partes num todo: na alma humana, das três funções psíquicas (alma racional, irascível e concupiscente), e na cidade, dos três grupos funcionais (a classe dos governantes, dos guardiões e a classe econômica – agricultores, comerciantes e artesãos). Como se nota, é a reunião das quatro virtudes, ou melhor, dessas quatro ‘partes’ da virtude, que tornam o homem e a cidade propriamente virtuosos. A excelência ética é imediatamente política na medida em que se realiza, por definição, numa comunidade. Nisso insiste a República quando define a justiça como o vínculo que permite harmonizar o diferente, unificar uma multiplicidade. Também o é na medida em que, se a virtude é um conhecimento, deve poder ser ensinada ao conjunto da cidade. De tal forma que a política se vê investida da tarefa de melhorar o conjunto dos cidadãos.
            Escapar da vacuidade do debate opinativo sobre o que é bom, justo e virtuoso (como faziam os sofistas) só era possível com a condição de poder nomear uma conduta verdadeiramente boa, instituindo uma ética da verdade. A ética e a política são os lugares da verdade.

Texto extraído do livro Vocabulário de Platão

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