A definição platônica de virtude não
é especificamente antropológica. A areté
se diz da excelência de uma função, seja qual for o sujeito dessa função. Dessa
maneira, todo objeto técnico tem uma virtude, assim como todo ser vivo.
Portanto, o termo “virtude” não qualifica somente a excelência do caráter ou da
conduta em circunstâncias precisas, ele também designa a perfeição de uma
atividade, seja ela qual for. Há aí um deslocamento e uma extensão
consideráveis de um termo que os gregos reservavam para a nobreza da conduta,
do caráter, particularmente na ordem da coragem guerreira. Portanto, o uso
antropológico e ético do termo, que hoje também é o do termo “virtude”, é
abandonado por Platão em proveito de um significado ao mesmo tempo mais vasto
(toda função pode ser virtuosa) e mais preciso: a virtude é a coisa benfeita. O
conceito de virtude é assim forjado mediante o paradigma técnico de um bom uso para dar uma resposta definitiva a uma questão
que permanece, ela sim, ética e política. A questão ateniense à qual Platão
pretende responder é a do aprimoramento de si: como se tornar melhor?
Se, como Platão faz, a virtude não é
deduzida do nascimento ou da natureza, ou seja, se a riqueza ou boas
disposições físicas e psíquicas não bastam para tornar um homem bom e belo,
então a excelência deve ser o resultado de certo exercício, de uma conduta. Em
que fundamentar, qual pode ser o critério da virtude e como adquiri-la? A essas
perguntas, que são de ordem ética e política, os Diálogos de Platão dão sempre
uma única e mesma resposta: a posse de um saber é que dá à virtude seu status. A excelência ética é uma
excelência cognitiva [relativo ao conhecimento], ser excelente nada mais é do
que saber como sê-lo. A virtude nada mais é que a consequência de um certo
saber. É isso que Sócrates defende contra os sofistas, esses preceptores tagarelas
que pretendiam, precisamente, “ensinar a virtude” de tal modo que seus alunos
soubessem administrar suas casas e governar sua cidade. Se a virtude supõe um
saber, passará a ser possível perguntar aos sofistas o que ensinam e o que dispensam
para eventualmente desacreditá-los. Contudo, ainda é preciso contrapor-lhes uma
definição de excelência ética e política, designando as virtudes que permitem
ao homem realizar perfeitamente as funções que lhes são próprias. O princípio
disso é assim resumido por Sócrates: “A virtude de cada coisa consiste num
ordenamento e numa disposição feliz resultante da ordem.” (Górgias)
Dos primeiros Diálogos até a
exposição acabada de República,
Platão propõe as quatro virtudes ditas “cardinais”, que definem a
excelência respectiva das quatro principais disposições humanas. Em primeiro
lugar está a temperança, que é ao
mesmo tempo uma capacidade de bem julgar, um bom senso e um autodomínio que
adota sobretudo a forma de um domínio dos prazeres; depois, a coragem, que é uma capacidade de julgar
perigos temíveis; e a sabedoria, que
é a excelência do conhecimento. Enfim, a justiça
pode ser definida como a quarta virtude que acompanha o exercício exclusivo, de
cada um, de sua função própria; ela é a virtude que significa o perfeito
ordenamento das partes num todo: na alma humana, das três funções psíquicas
(alma racional, irascível e concupiscente), e na cidade, dos três grupos
funcionais (a classe dos governantes, dos guardiões e a classe econômica –
agricultores, comerciantes e artesãos). Como se nota, é a reunião das quatro
virtudes, ou melhor, dessas quatro ‘partes’ da virtude, que tornam o homem e a
cidade propriamente virtuosos. A excelência ética é imediatamente política na
medida em que se realiza, por definição, numa comunidade. Nisso insiste a República quando define a justiça como o
vínculo que permite harmonizar o diferente, unificar uma multiplicidade. Também
o é na medida em que, se a virtude é um conhecimento, deve poder ser ensinada
ao conjunto da cidade. De tal forma que a política se vê investida da tarefa de
melhorar o conjunto dos cidadãos.
Escapar da vacuidade do debate
opinativo sobre o que é bom, justo e virtuoso (como faziam os sofistas) só era
possível com a condição de poder nomear uma conduta verdadeiramente boa, instituindo uma ética da verdade. A ética e a
política são os lugares da verdade.
Texto extraído do livro Vocabulário de Platão
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