domingo, 28 de maio de 2017

Nietzsche - Eterno Retorno e afirmação da Vida

O maior dos pesos – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse em sua mais desolada solidão e dissesse: “essa vida, como você a vive e está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma ordem –  e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A eterna ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!” – Você não se prostaria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!” Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?”, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela? (Nietzsche, A Gaia Ciência)

“O homem, o animal mais corajoso e habituado ao sofrimento, não nega em si o sofrer, ele o deseja, ele o procura inclusive, desde que lhe seja mostrado um sentido, um para quê no sofrimento. A falta de sentido do sofrer, não o sofrer, era a maldição que até então se estendia sobre a humanidade.” (Nietzsche, Genealogia da Moral)

“Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas. Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim! (Nietzsche, A Gaia Ciência)


O APRENDER COMO DECIFRAÇÃO DE SIGNOS



Por toda a história da filosofia, com raríssimas exceções, as paixões (ou os afetos) foram vistas como erro, desvios, enganos, por isso deveriam ser mantidas sob controle para que assim a razão com toda a sua força pudesse exercer seu domínio na alma. Assim, por apresentar um caráter imprevisível de mudanças de estados e fluxos, os afetos e as paixões foram reconhecidos como forças caóticas que distanciavam o homem da razão.
Para Deleuze e também para Spinoza, é exatamente nessa passagem, nessa transição e nessa diferença de estados, gerada pelo encontro dos corpos e ideias – pelos afetos –, que o pensamento pode surgir com toda a sua potência. Como poderia haver movimento, mudança, transformação e diferença sem um encontro com o diferente, com o estranho, com o outro pensar?
Muitas vezes a palavra filosofia é interpretada como “amor à sabedoria”, ou “amor ao saber”. Parece que tal definição empobrece, e muito, o que ela enquanto disciplina tem a oferecer. O filósofo não busca algo já dado, já posto, mas sua busca é um movimento em direção a algo que ele não possui, mas que, ao mesmo tempo, está “sendo” possuído por ele. É nesse território movente, nesse “sendo”, que não é nem “não saber”, nem “saber pronto”, já constituído, que habita o filósofo: este é o seu território, puro devir.
Segundo Spinoza, há certos tipos de encontros, de afetos, que possibilitam um aumento na potência de agir e na força de existir de um corpo. É nesse "entre”, nessa “passagem”, nessa variação contínua que está o próprio movimento da vida. Todo aprender está sempre em um “entre”, ou seja, o aprender está bem no meio, entre o não saber e o saber. Dessa forma, todo aprendizado é uma passagem, uma variação de estados que gira em torno de algo ainda não conhecido para algo conhecido.
Tanto o desconhecido (ignorância) como o conhecido (saber) não definem o aprender, pois a ignorância e o saber são estados de coisas que não possuem movimento. O aprender diz respeito a movimento e transformação, passagem de estados. Nesse sentido, o aprender tem relação direta com os afetos, diferentemente do saber que, por ser um estado determinado e concluído, identifica-se diretamente com conteúdos representativos do pensar.
A pedagogia da resposta, influenciada pela própria tradição filosófica, relaciona o aprender com aquilo que já tem forma e identidade, ou seja, confunde o saber com o aprender. Saber é forma, conteúdo, substancia, aprendizado concluído e finalizado. Talvez, a título de hipótese, pode-se dizer que muitos alunos não se sentem estimulados pela pedagogia da resposta – a qual mantém estreita relação com o saber – pois, indiferente ao pensar criativo, ao próprio movimento natural do aprender, tal pedagogia não se abre à incerteza, ao fluxo da experimentação que está na própria essência do aprender. O aprender está no meio do saber e do não saber. No meio. Para aprender há que se mover entre um e outro, sem ficar parado em nenhum dos dois. Aqueles que sabem e aqueles que não sabem não aprendem, não podem aprender.
Os afetos, enquanto movimento e passagem de estados, revelam ser o elemento mais íntimo do aprender. Por afetos Spinoza entende as afecções do corpo – resultante dos encontros entre os corpos – pelas quais a potência de agir desse mesmo corpo é aumentada ou diminuída, favorecida ou impedida”. Afetos são, portanto, signos, marcas, efeitos dos encontros entre os corpos, entre as ideias. Desse modo, não há aprendizado que não seja desvendamento de signos, de afetos. Não há aprendizagem que não passe por esse processo de significação.


Iafelice, Henrique. Deleuze devorador de Spinoza: teoria dos afetos e educação, p. 33-35. São Paulo: EDUC: FAPESP: 2015. Adaptado.

A ARTE DO ENCONTRO – Espinosa / Deleuze


           De acordo com Gilles Deleuze, em seu livro sobre a Ética de Espinosa, pode-se dizer que existem dois tipos de encontros. No primeiro, o que ocorre é uma composição entre os corpos. Um corpo, ao se encontrar com o meu, compõe-me. Composição significa que as relações presentes naquele corpo se unem às minhas de tal forma que ambos os corpos se conservam e se prosperam. O único critério determinante é a conveniência.
          Se um encontro convém para ambos os corpos, pode-se dizer que esse encontro é bom; convém, na medida em que produz em mim e no outro um afeto de alegria e de composição. Bom, na ordem dos encontros, significa bom encontro. Um bom encontro aumenta minha potência de agir. Uma afecção (sucessão de diferentes estados do corpo conforme este é afetado pelo encontro com outros corpos) desse tipo gera um afeto de alegria.
          A potência de ser, de agir de um corpo, enquanto poder para ser afetado por outros corpos, busca, por natureza, sempre aquilo que lhe é útil, conveniente, isto é, que preserva sua potência. Ao ser preenchido por um afeto de alegria, que favorece e aumenta sua potência de agir, o poder de ser afetado que constitui um corpo aumenta e se identifica com este aumento de potência proporcionado pelo afeto de alegria. Assim, todo o esforço de um corpo será direcionado para que haja uma manutenção dessa alegria.
          O segundo caso de encontro é aquele em que as relações das partes que constituem um corpo sofrem uma decomposição ao se relacionarem com outros corpos. Um corpo que não convém ao meu corpo gera uma diminuição da minha potência de agir, do poder de ser afetado que me constitui. Esse tipo de encontro gera o afeto de tristeza. Sempre que há um encontro em que há uma diminuição da potência de agir, pelo menos em um dos corpos submetidos a esse encontro, necessariamente esse corpo, que sofreu a diminuição de potência, será afetado pela tristeza. Toda diminuição de potência está relacionada com um afeto de tristeza.
          O poder de ser afetado que constitui a essência de um corpo, mesmo sendo afetado por um encontro que diminui a sua potência, procurará aquilo que lhe seja útil para poder manter outros tipos de encontros que lhe sejam potenciais, ou seja, encontros que lhe aumentem a capacidade de agir e existir. Spinoza chama essa disposição do corpo a preservar sua potência de conatus, isto é, a essência própria, e variável, de cada corpo. A tristeza, para Spinoza, é a passagem de uma perfeição maior a outra menor. A alegria, de forma inversa, é a passagem de uma perfeição menor a outra maior. Toda tristeza só pode ser originada por uma causa externa, pois toda diminuição de potência de existir só pode ser causada por um agente exterior e nunca pela própria potência do conatus (um poder de ser afetado, que constitui a essência de um corpo, jamais buscará a diminuição de sua potência).
          Quando nos relacionamos com alguma coisa que não se compõe conosco, por natureza temos a tendência de destruí-la, ou seja, a tristeza pode nos conduzir ao ódio, que não é mais do que uma tristeza acompanhada da ideia de uma causa exterior. Inversamente, quando nos relacionamos com alguma coisa com a qual nos compomos nossa potência de ser é preenchida por afetos de alegria, que pode nos conduzir ao amor, que é uma alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior.

Iafelice, Henrique. Deleuze devorador de Spinoza: teoria dos afetos e educação, São Paulo: EDUC: FAPESP: 2015. Adaptado.