Convivendo com outros, os conflitos de
vontades e interesses são sempre inevitáveis. No momento do impasse, que é uma
luta entre diferentes desejos, um indivíduo quer impor ao outro a sua vontade.
Normalmente quem vence esse conflito é aquele mais bem aparelhado: dependendo
da circunstância, pode ser o mais forte, o mais inteligente, o mais jovem, o
mais bonito...
A
capacidade de transformar as vontades dos outros na sua vontade é aquilo que
chamamos de poder. Numa primeira
aproximação, o poder seria a capacidade de realizar qualquer ato ou ação; um
aspecto importante é que ele pressupõe até mesmo a oposição, constituindo,
então, a capacidade de superar essa oposição pela força, impondo-se a ela. De
modo geral, o poder seria a potência para realizar determinado desejo ou
vontade.
O
jogo do poder apresenta-se, assim, como um jogo de vontade, no qual a vontade
de um – o mais forte, por alguma razão – acaba se impondo sobre a vontade de
outro ou outros. A noção de poder implica também a capacidade de ter suas
ordens obedecidas. Aquele que é investido de poder – um indivíduo ou uma
instituição – tem a chance e os instrumentos para potencializar suas vontades,
transformando-as em atos.
Não
podemos, entretanto, julgar que a ação do poderoso dá-se unicamente no sentido
de subjugar e neutralizar a(s) vontade(s) alheia(s). Embora em casos bastante
específicos a ação hegemônica do poder só seja possível por meio da
neutralização das demais vontades, de modo geral, o poder age pelo
convencimento e pela manipulação das vontades alheias. Assim, em vez de agir
pela neutralização das vontades, o poder age muito mais por meio de sua transformação, tomar o conjunto das
vontades diferentes e torna-las uma, a vontade do poderoso, com a qual os
demais devem concordar.
Nessa
visão clássica do poder, ele é compreendido como uma coisa que se concentra em
determinados espaços de um grupo social: o lugar do poder é o Palácio do
Governo, é a Câmara dos Deputados, ou mesmo o próprio corpo do rei, que a todos
governa.
Se
apenas um tem o poder, todos os outros indivíduos não têm poder algum: é uma
sociedade servil. Mas de onde viria o poder desse indivíduo? Porque todos o obedecem?
Um
filósofo do século XVI chamado Etienne de la Boétie, num pequeno livro, o Discurso da servidão voluntária,
forneceu a pista para entender a charada: quando um indivíduo manda, seu poder
vem não dele mesmo, mas dos outros que se submetem. De sua perspectiva, o que
sustenta o tirano não é sua própria autoridade, mas a entrega dos súditos, isto
é, a dominação só é possível com o concurso direto dos próprios dominados.
Segundo ele, em torno do tirano constrói-se uma rede de interesses. O tirano tem
6 assessores diretos, cada um deles tem mais 60 empregados e assim por diante,
de modo que toda a sociedade acaba envolvida nessa rede de interesses.
Desse
modo, o que garante o poder do tirano é uma rede de micropoderes e interesses
que se constrói a sua volta, o que, ao invés de enfraquecer esse poder central
pela diluição, fortalece-o, sendo seu próprio sustentáculo e sua própria
garantia.
Mas,
se os indivíduos se recusarem a servir, acaba o poder do tirano. Portanto, a
sociedade servil depende do consentimento dos indivíduos; se eles resolverem
não mais obedecer a um rei e solucionar seus próprios problemas políticos, eles
podem construir novas formas de relação social.